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J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

02 Mai, 2024

Vou ali, já venho

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És treinador do Sporting, gozas de enorme popularidade, estás a umas semanas de confirmar um expressivo título de campeão e decides fazer uma viagem inusitada para resolver assuntos pessoais, sendo fotografado no aeroporto e gerando perplexidade, contestação em surdina e dúvidas sobre o futuro da ligação, até então, idílica.
O “vou ali a Londres, já venho” de Rúben Amorim é um “déjà vu” de uma novela que ditou o fim a curto prazo da intensa relação dos sportinguistas com o treinador Malcolm Allison, em 1982, e que, de algum modo, provocou uma crise que deixou o clube na doca seca dos campeonatos até ao fim do século.
Nesta foto do meu baú, Allison é apanhado no aeroporto a explicar-me que se deslocava a Inglaterra para assistir ao casamento da filha e que isso em nada afetaria a concentração da equipa, apesar da reduzida vantagem classificativa sobre os rivais do costume.
Não sei quem chamou os jornalistas a Tires para testemunhar a partida de Amorim, mas quem me fez voar com o Lobo Pimentel Jr. para a Portela, naquele dia, há 42 anos, foi um antigo dirigente leonino, velha raposa do mundo da bola, indignado pela falta de profissionalismo do treinador.
Ao contrário de Amorim, Allison nunca reconheceu o erro, nunca pediu desculpa e demorou poucas semanas já na época seguinte a enredar-se em episódios rocambolescos e banhos de champanhe búlgaro que ditaram o divórcio litigioso com o presidente João Rocha.
Com Oliveira, Manuel Fernandes e Jordão na frente de ataque essa terá sido a melhor equipa do Sporting depois dos 5 Violinos, vencedora de campeonato e Taça, por mérito táctico, dinâmico e motivacional do inglês, mas também do preparo físico de Radisic. A sua saída extemporânea lançou o clube em enorme confusão, entregando a equipa a uma impensável solução técnica de jogador-treinador e a sucessões diretivas mais ditadas pela paixão do que pelo bom senso.
Como será o começo da próxima época de Rúben Amorim no Sporting? Até que ponto esta ideia de “relação aberta” subitamente revelada pelo jovem treinador será suficientemente forte para sustentar o compromisso dos jogadores e dos próprios adeptos?
No futebol como na vida, as vitórias ajudam a consolidar vínculos e cumplicidades, mas quando a desconfiança germina o processo de separação torna-se, quase sempre, inevitável.