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J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

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CATARSES 1️⃣4️⃣

“A seleção de Portugal é como a tourada à portuguesa: não mata o touro, apenas o humilha”.

Esta frase tem quase 40 anos, foi escrita no ‘L’Équipe por Victor Sinet, o jornalista que eu gostava de ter sido, e manteve-se atual ao longo de décadas de sol e sombras, “pasodobles” e voltas à arena, mas também muitas broncas e lenços brancos à espanhola, a adiar sempre a estocada final para futuras praças e feiras.

No futebol, para ouvir música, também não basta derrotar o adversário, é preciso fazê-lo com nota artística, que o público é exigente e difícil. Recorro à “Tourada” de Ary dos Santos como metáfora do Mundial: “Entram empresários moralistas, entram frustrações, entram antiquários e fadistas e contradições, entra muito dólar, muita gente, que dá lucro aos milhões”.

Como ontem, frente ao Uruguai, na monumental “plaza mayor” de Doha: triunfo de poder a poder, dinheiro em caixa, mas ainda sem direito a volta de honra. 

Primeiro, uma lição paciente de brega, ao longo dos 45 minutos iniciais, frente a um adversário bravo e desembolado, lidando o manhoso a toda a largura, roubando-lhe a bola, cansando-o, desmoralizando-o, numa jigajoga sem balizas e monótona, que, no entanto, deixou o Uruguai bem picado. 

No segundo tércio, finalmente, um ferro comprido, numa sorte sesgada com a maestria de Dom Bruno Fernandes, o cavaleiro puro-sangue lusitano, cuja arte de colocar a bola na ponta da melena de Cristiano Ronaldo baralhou os “inteligentes” da FIFA, na hora de escolher a música para o matador. Um golpe nos cachaços dos galifões Coates e Godin, derrotando-os no mano a mano e desfraldando a bandeira vitoriosa das cinco quinas.

Depois de alguns derrotes perigosos, livrados pelos forcados de Dom Pepe, com as mãos firmes do pegador Diogo Costa, algumas bandarilhas de esperança e várias tentativas falhadas de burlar o Uruguai, a faena culminou, finalmente, numa cernelha salteada como castigo máximo.

Lá está: Cavani e Darwin, os marialvas mais nobres do Uruguai, sairam com a humilhação da derrota, mas, curiosamente, não eliminados. A raça celeste ainda sobrevive, embora moribunda, em cartaz para uma terceira peleja, essa sim à “muerte” frente ao Gana.

Não foi uma lide grandiosa, mas foi um triunfo. Portugal avança no festival do Catar com as mesmas farpas e o mesmo “bamboleo” de sempre, entre a dança e o tropeço.

O apoderado FEMACOSA já pode treinar as sortes para os oitavos de final, mantendo a briosa determinação em sair pela porta grande de dia 18 de dezembro, a ouvir a banda do Samouco e aos ombros dos que hoje ainda teimam, mais nos camarotes do que nas barreiras, em não lhe aplaudir a “arte” dos bons resultados.

O futebol da seleção não justifica olés, mas é bravo e castiço. Merece que os cépticos e críticos lhe concedam a alternativa da confiança, ainda que temporária, tal como os que não gostam de touradas, como eu, reconhecem a mestria artística dos cavaleiros portugueses. 

Como cantou o poeta, que a seleção continue a tourear, ombro a ombro, as feras. Porque tudo o mais são tretas.

 

FOTO Sky Sports