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O dérbi fofinho

03.08.19

O amor está no ar. A paz reina. O futebol está com os anjos.

Este é o ambiente na véspera da 41.ª edição da Supertaça Cândido de Oliveira que vai opor, apenas pela quarta vez na história, os dois clubes mais importantes de Lisboa, servindo de lançamento do novo canal oficial da Federação, instrumento assumido de venda do futebol a audiências puras e frescas. Pela positiva e sem polémicas, com a benção do presidente Marcelo. 

Se, em campo, tudo corresse como o emocionante e inesquecível frente a frente dos dois treinadores do Benfica e do Sporting, estaríamos perante o derbi mais fofinho da história e, inevitavelmente, acabaríamos embaraçados pela traição ao espírito do jogo e à história deste confronto. Felizmente, no relvado do Estádio Algarve, não será assim, haverá artistas e não figurantes.

A predisposição dos jornalistas em geral para terem acesso directo aos intervenientes dos jogos, antes, durante e no final, sempre foi uma prioridade que as instituições futebolísticas, com a Federação à cabeça, combateram ferozmente, com o pretexto de que faria mal aos jogadores e treinadores e, por consequência, ao jogo e aos respectivos objectivos. Até microfones voaram para o fundo do lago, em nome dos superiores interesses dos heróis da Nação! 

Agora, os donos da bola defendem que o “produto” será mais lucrativo mediante uma exposição controlada, sem polémicas, sem excessiva paixão, mantendo a reserva dos protagonistas a quem paga os direitos exclusivos e, portanto, como antes, a deixar aberta a válvula de escape dos meios independentes. Eles sabem que o espírito do futebol fofinho só dura até ao apito inicial do árbitro, mas está lançada a ideia de um futuro espectáculo bacteriologicamente puro.

Nos clubes, há muito tempo se restringe o acesso aos protagonistas aos meios internos, incluindo as televisões próprias, tornando a comunicação para o exterior mera propaganda, sem mediação independente e apenas mitigada em conferências de imprensa justificadas pelo tempo de exposição dos painéis dos patrocinadores, cenários e “product placement”, com toda uma lógica de marketing e promoção que está nos antípodas do jornalismo.

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Olho para estes jogos de verão envolvendo os principais clubes europeus em estádios cheios de japoneses sorridentes ou de americanos exuberantes como uma visão de futuro. Um dia será assim a Superliga, depois da dissidência dos clubes principais, o UEFexit, que tanto assusta a UEFA neste momento: apenas dúzia e meia de clubes mais poderosos a circular pelo mundo mais rico, como uma espécie de Globetrotters em espectáculos elitistas e inacessíveis aos mortais comuns.

A força do dinheiro já transformou totalmente o conceito de pré-época. Acabaram os tempos dos estágios em retiros espirituais, treinos de carga entremeados com joguinhos de tiro ao alvo com equipas locais de padeiros e fiéis de armazém, progredindo lentamente em torneios “veranieggos" até chegar ao início das competições mais ou menos no ponto. Agora é a abrir: viagens transcontinentais, choques térmicos e climáticos violentos, contactos comerciais com multidões histéricas de adeptos-clientes e jogos com os adversários mais poderosos, ainda que a maior parte dos jogadores não actue mais do que 45 minutos por partida.

Cientificamente, não sei o que resulta melhor, mas os atletas da actualidade não engordam nas férias nem desligam da profissão, sob pena de perderem o comboio na estação de partida. O nível destes jogos fica longe do padrão competitivo a que estamos habituados, mas é extasiante para estes novos públicos, menos exigentes, no Extremo Oriente ou na América do Norte.

São espectadores desportivamente mais tolerantes, mas economicamente mais interessantes e, sobretudo, mais numerosos. As grandes marcas do futebol inglês, espanhol, italiano e alemão já têm mais consumidores no Oriente ou na América do que nos próprios países de origem.

Se transportarmos este balão de ensaio para um contexto futurista, num Mundo cada vez mais apequenado pelas comunicações globais, preparemo-nos para mudar hábitos de décadas. A própria sobrevivência do futebol local pode residir, em parte, na exportação dos espectáculos entre campeões europeus para palcos distantes e nos respectivos “prime times”, mas às nossas horas de almoço ou inícios de madrugada, deixando as “slots” horárias mais valiosas para as competições domésticas.

No sofá de um adepto português seria assim: um Barcelona-Chelsea, do Japão, à hora de almoço, um Sporting ou um Benfica à hora de jantar e um Real Madrid-Arsenal, de Nova York, à meia-noite. Acabaria aquela concorrência desleal dos jogos das equipas grandes da Premier League ou da Liga espanhola à mesma hora do nosso campeonato e, então, seria só escolher entre um Braga-Tondela e um Sevilla-Bilbao ou um Newcastle-Everton.

A Superliga é um projecto imparável, mas o futebol precisará sempre de quem descubra e desenvolva as sucessivas gerações de jogadores. Para que tal seja viável e funcional, as respectivas competições locais terão de ser minimamente aliciantes e competitivas, com carisma e público - e tudo indica que os seus ideólogos procuram chegar a um modelo de negócio que contente todas as partes e todas as escalas.

 

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A esta hora deviam estar a passar na minha tv os jogos da Liga dos Campeões. Esta noite gostava de ver o Liverpool v Paris SG e dar uns saltos a mais dois ou três. Mas pela primeira vez, na história da Champions League, isso não é possível legalmente em Portugal, exceptuando uns processos onerosos e pouco práticos que os novos detentores dos direitos tentam vender em alternativa. Até os Inácios de recurso estão ainda com dificuldades em suprir a lacuna.

Não sou eu quem vai por em causa a estratégia comercial dos “players”, mas é tempo de os consumidores darem resposta. Por mim, é acabar com as assinaturas actuais, com ofertas claramente abaixo do que subscrevi em devido tempo, mas sem redução da mensalidade, chegando a ocupar horários nobres como as tardes de domingo com repetições, ou seja, um portfólio claramente insuficiente para cinco canais.

Momentos antes de começarem as partidas, vejo um anúncio sobre a oferta da Sport TV, contabilizando 11 Ligas, 7 Taças, 2000 jogos, 55.000 horas de desporto. E, no entanto, um canal está a dar o Sporting-Marítimo de domingo, outro o Watford-Manchester United também em repetição, um jogo da Liga Mundial de Voleibol, Sérvia-Rússia, em directo, o Masters de Padel em directo e uma coisa qualquer de Luta Livre.

Não foi por isto que subscrevi este serviço, até podiam oferecer 100.000 horas, mas tinham de reduzir a metade o preço que continuam a cobrar por uma oferta claramente inferior. 

Praticamente tudo o que a Sport TV hoje transmite está disponível em vários sites de streaming. Não faz sentido pagar o que se pode ter gratuitamente, inclusive em casas de apostas legais.

Não sei quais são as razões para as plataformas de distribuição nacional não chegarem a acordo com a Eleven Sports, mas a imagem que passam é de cartelização do sector, em defesa do negócio da Olivedesportos. Todavia, os únicos que se queixam são os consumidores…

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