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Para lá da indemnização simbólica de dois milhões de euros, muito menos de um euro por cada mensagem devassada na salinha secreta das catacumbas do Dragão, a consequência mais importante desta condenação do FC Porto é a restituição da propriedade e a terminante proibição de novas violações à correspondência digital do Benfica - constituindo também um eloquente aviso (e jurisprudência) para outros potenciais “hackers”, da vida comercial ou das relações pessoais.
O FC Porto, o Porto Canal e o seu colaborador foram condenados porque não agiram como jornalistas ou sequer divulgadores de informação, como chegaram a reclamar em tribunal. Não seleccionaram a informação, separando o trigo do joio, o que era criminalmente relevante do que era pessoal ou intransmissível, incluindo transacções com terceiros, não investigaram a veracidade de algumas alegadas irregularidades contidas na correspondência entre agentes do Benfica e limitaram-se a despejar pela janela mediática, na tv e na internet, sem qualquer filtro, alguns terabites de lixo informativo que, alegadamente, lhes tinha caído na secretária.
Agiram como vizinhas coscuvilheiras, tentando manchar a credibilidade de toda e qualquer pessoa ou instituição que tivesse interagido com o Benfica por mail electrónico, desde indivíduos desconhecidos a outros clubes e empresas, passando pela Igreja Católica, cujos sacerdotes se popularizaram, à voz do FC Porto, como símbolos do crime organizado.
Para os condenados, talvez dois milhões de euros fossem amendoins, nos tempos em que não estava em situação financeira periclitante sob apertada vigilância do fair-play financeiro da UEFA, como preço pela confirmação dos alegados crimes do rival a usar noutros processos.
A diferença é que, a partir de agora, as alegadas provas, os conteúdos que o FC Porto não tinha o direito de divulgar sem autorização, ficam apenas na posse da Polícia Judiciária e do Ministério Público, longe do julgamento popular, a elas competindo exclusivamente avaliar se contêm ou indiciam comportamentos ilícitos do Benfica e dos seus dirigentes.
Como se percebeu hoje, é muito mais fácil provar o dolo de uma violação de correspondência privada do que a índole criminal de ser padre e rezar uma missa.

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Um dia depois de Rui Vitória ter declarado a ameaça de extinção ao tradicional “inferno da Luz”, chamando a atenção para a sina de maus resultados obtidos pelo Benfica frente ao FC Porto nos últimos 15 anos e colocando a sua dificuldade de inverter a lógica ao nível de um Camacho ou de um Quique Flores, a equipa respondeu com uma vitória de entrega, luta e determinação. Pouco e pobre futebol, mas finalmente o resultado que Rui Vitoria procurava há mais de uma década.

O jovem Ruben Dias e o próprio treinador, ainda que induzidos pela pergunta do repórter da BTV, empolgado pela emoção de um triunfo raro, acharam por bem etiquetar o que acontecera como uma “vitória à Benfica”. E ao mesmo tempo, dentro do recinto, ouvia-se um pasodoble, gentilmente cedido pela filarmónica do Campo Pequeno - só faltou quem lhe chamasse uma "comemoração à Benfica".

A emoção à solta, os desejos reprimidos, a falta de respeito, o amadorismo - há diversas justificações fáceis para as surpreendentes reacções negativas que uma vitória tão importante pode suscitar.

Os adversários de ocasião também gostam de chamar “salão de festas” ao outrora temido recinto. E quando o debate desce o nível, cada resposta consegue ser mais lamentável. Entre gente que se detesta, o mau humor não é uma indisposição momentânea, é um estado de espírito.

Os gostos musicais duvidosos dos anunciantes do estádio da Luz vêm de longe. Reza a lenda que uma vez receberam Pinto da Costa ao som de “Bamboléo”, dos Gipsy Kings, porque achavam que se percebia “Bandoleiro” e a música assim chamada, de Ney Matogrosso, não seria tão propícia à dança.

Há provas de que a música e o desporto andam de mãos dadas desde os Jogos da Antiguidade, exactamente pelo sentido de festa e alegria do espectáculo desportivo. Os clubes da NBA, por exemplo, facturam imenso com os discos da banda sonora dos respectivos jogos, que incluem sempre o toque da carga da Cavalaria, quando a equipa precisa de um suplemento de energia para suplantar a resistência adversária. Mas nunca lá ouvi qualquer som desrespeitoso para os visitantes no final dos jogos, fosse qual fosse o resultado.

Durante largos momentos do jogo de domingo, a minoria de adeptos do FC Porto fez-se ouvir mais que os 50,000 benfiquistas. Até ao golo de Seferovic, aquilo foi mais o “salão de festas” do que o “inferno”, mas ninguém podia esperar que acabasse com a música ambiente da recolha das chocas no Campo Pequeno.

Um golo e uma vitória alcançados na luta mereciam, não digo um “We are the champions”, exagerado nesta altura do campeonato, mas, pelo menos um “Highway to Hell”, que o autor, Bon Scott, remetia para a travessia do deserto (australiano), e que portanto teria duplo significado: que a A1 do Porto a Lisboa voltasse a ser o caminho para o Inferno (da Luz) e também o simbólico trajecto que os benfiquistas certamente desejam aos portistas nos próximos tempos, uma longa travessia de um deserto de títulos.

Mostrar bom gosto musical, sem ofensas e com espírito positivo, seria muito mais “à Benfica” do que qualquer investida tauromáquica. Tal como jogar bom futebol, espectacular e prolífico, também será muito mais “à Benfica” do que o pontapé para a frente e fé em Seferovic que se viu neste confronto entre as melhores equipas do país.

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Nos anos 80 do século passado, numa qualquer viagem com uma equipa de futebol, o saudoso Neves de Sousa criou um cumprimento entre os jornalistas, que ainda hoje utilizamos como senha privada:

- Então, tudo bem?

- Tudo tratado, só falta o dinheiro para o árbitro.

Era assim que olhávamos para os bastidores do futebol nacional há 30 anos, há 20, há 15, mas já não, seguramente, depois do “apito dourado” e do processo de profissionalização encetado com a organização do Europeu, os novos estádios, os melhores jogadores e treinadores de sempre e uma Federação prestigiada.

Neste contexto positivo, as práticas reveladas pela devassa dos emails do Benfica fazem-nos recuar décadas, à penumbra tabagista do “Calor da Noite” e do “Trombinhas”, ao pequeno tráfico de influências em que pontificavam os dirigentes das associações distritais, com as mãos na disciplina, na arbitragem e nas regulamentações, prestando contas apenas ao clube dominante. Era um pequeno tráfico mais para consumo próprio, do que para grandes negócios, um golo fora-de-jogo aqui, um pénalti ali, uma expulsão perdoada acolá, quase sempre em quantidades toleradas pela lei do mais forte, mas efectivamente em linha directa entre clubes e árbitros, pesando estes como a cocaína, o produto mais valioso deste tipo de tráfico. 

Nos últimos anos, em conjunto com um desenvolvimento modelar e ímpar da organização desportiva, das infraestruturas e dos recursos humanos, o Benfica terá cometido o erro de querer ser dominante também no lado negro da bola e, claro, deu-se mal: nunca lutes com o porco, explicava recentemente António Salvador, citando Bernard Shaw.

Todavia, continua sem se perceber como é que, na organização que terá montado, o Benfica influenciava directamente os jogos e os resultados, por mais rebuscadas que sejam as alegações sobre as entregas de camisolas, cachecóis e autógrafos nos parques de estacionamento da Luz, fotografadas por agentes secretos como se tratasse da entrega de um quilo de “produto”.

Quando Paulo Gonçalves tirou o Curso no FC Porto, o controlo dos bastidores regulamentares e do campeonato dos gabinetes era feito dentro da lei, nos tempos dos xitos, e regado a uísque velho no Conde Redondo, sempre que havia uma  Assembleia Geral da Federação. Quando avançou para o Mestrado no Boavista, aprendeu a controlar o sistema fora do âmbito associativo, através da Liga, embora com o risco de ter de entregar os chefes à Justiça para salvar a pele, em caso de crise, como aconteceu. E, finalmente no Doutoramento no Benfica, parece que conseguiu isolar o clube e os seus dirigentes de eventuais malefícios do processo, ao doar o próprio corpo ao Julgador.

O desenvolvimento “académico” de Paulo Gonçalves seria a metáfora ideal para descrever o trajecto até ao crime perfeito, evoluindo num ciclo em que as novas leis o tornavam supostamente impossível, se na prática conseguíssemos detectar e isolar a correspondência entre um cachecol e um golo fora-de-jogo, uma camisola e um pénalti, um bilhete VIP e uma expulsão perdoada. Até ver, isso ainda não pode ser entendido como “o dinheiro para o árbitro”.

 

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