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Há uns anos, o mais considerado comentador em Portugal disse no seu púlpito que “quem julga o futebol pelas estatísticas não percebe nada de futebol”. Eu, que me considero pioneiro nesse tipo de análise na imprensa portuguesa, a partir de 1983, enfiei a carapuça, não porque reduza a minha observação a esses parâmetros, mas porque julgo que eles indiciam quase tudo sobre a capacidade de um jogador ou de uma equipa e, numa análise alargada, fazem sempre o retrato minucioso de qualquer atleta.

Mas há excepções. Há casos de jogadores com estatísticas excepcionais, que coleccionam triunfos e títulos, mas nunca entram nas contas dos que exaltam a sua sapiência com o sacramental “futebol é isto mesmo” e percebem tudo sem recorrer às estatísticas. Mário Jardel não foi contratado pelo Benfica porque, disse-me um dirigente na altura, “só marca golos”, ou seja, tinha boas estatísticas, mas não saberia jogar!

André Almeida é também um destes casos raros, visto pelos especialistas como um jogador banal apesar dos números excepcionais. No final da sua melhor época de sempre, em que foi o mais produtivo lateral direito do futebol europeu, viu-se ultrapassado por dois laterais esquerdos na equipa-tipo da sua própria Liga. E porquê? Porque tanto Grimaldo como Alex Telles tiveram estatísticas semelhantes, mas jogando noutra posição.

Os técnicos da Liga Portugal não tiveram coragem de escolher entre Grimaldo (34 jogos, 4 golos, 12 assistências) e Telles (33-4-8) e atiraram Almeida (32-2-12) borda fora, sem sequer considerar que jogou menos tempo e custa cinco vezes menos que os outros dois. Arrisco-me a dizer que quem fez esta escolha percebe pouco de futebol e ainda menos de estatísticas.

Podiam tê-lo substituído por Manafá ou Ristovski ou Marcelo Baiano, apesar de terem estatísticas bem piores mas serem excelentes jogadores, mas não: o melhor lateral direito de Portugal é um lateral esquerdo.

Pagava para ver Grimaldo ou Alex Telles, de quem o saudoso Neves de Sousa diria que só têm pé direito para subir ao estribo do eléctrico, fazerem um joguinho de alta competição como laterais direitos. Devia ser hilariante, no mínimo. Mas já vi André Almeida desenrascar-se muito bem como lateral esquerdo (39 jogos, 1 golo, 3 assistências, na carreira) e noutras posições, pois ninguém que perceba de futebol lhe negará a condição de melhor jogador polivalente desde António Veloso.

Por tudo isto, também não tinha entendido a desconsideração permanente que lhe faz o seleccionador nacional Fernando Santos, um treinador a quem as estatísticas triunfais acabam, no final das contas, por justificar as decisões mais incompreensíveis.

André Almeida está numa fila atrás de João Cancelo, Nelson Semedo, Cedric Soares, Ricardo Pereira e Diogo Dalot, pelo menos, mas talvez também depois de Mário Rui e Rafael Guerreiro, que são óptimos laterais esquerdos.

Talvez tenha de nascer dez vezes, como diria outro grande empírico da bola!

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Pontapé para a frente e para o ar, incapacidade de ligar três passes consecutivos, duelos aéreos a todo o momento, número de faltas muito acima da média e do aceitável. 

O estudo aos 90 minutos do último Benfica-Porto confirma o que a olho nu já se tinha percebido: um dos clássicos mais mal jogados de sempre, do pior futebol que se tem assistido em Portugal neste século.

De parte a parte, embora talvez tenha sido a estratégia portista a primeira responsável pelo que se passou, a par da incapacidade do Benfica para transformar a posse de bola em futebol ligado. Mas ambos os clubes têm jogadores, a quem pagam fortunas, para apresentarem um modelo de jogo mais espectacular e de qualidade, sem sacrificarem o resultado.

Segundo os dados do goalpoint.pt houve 66 duelos aéreos (28 ganhos pelos encarnados, 38 pelos azuis), mais do que um por minuto útil de jogo, o dobro da média histórica deste tipo de lances entre candidatos ao título.

Nenhum outro jogo até agora teve maior percentagem de passes errados, mais do dobro do normal a este nível: 30% para o Benfica, 36% para o Porto, num total de mais de 200 perdas de bola.

Nas bolas longas, o Benfica teve apenas 35% de precisão, o Porto 43%.

Dos cruzamentos, o Benfica concretizou apenas 2 em 16 (13%), o Porto 6 em 19.

Como se a bola queimasse nos pés dos artistas!

No capítulo das faltas, o Porto foi a equipa que assumiu, de início, o jogo mais duro, nos limites, e chegou ao intervalo tendo cometido o dobro das assinaladas. Mas depois do golo de Seferovic a tendência inverteu-se completamente, com o Porto a passar a ter mais posse de bola e o Benfica a calçar as botas cardadas para terminar com mais infracções (24-20) no total da partida.

Estas 44 faltas excedem em quase uma dezena a média geral do campeonato, que já é a mais elevada das principais ligas europeias.

Já sabemos que esta análise interessa muito pouco a quem ganhou e é para ser rapidamente esquecida por quem perdeu. Mas não foi, de todo, uma vitória à Benfica, nem uma oposição à Porto. Ambas as equipas valem muito mais do que quiseram ou conseguiram exibir, num confronto em que prevaleceu a força, o foco no adversário e a concentração absoluta na ocupação dos espaços. Sobrou muito pouco, de talento e de inspiração, para a essência de um jogo de futebol.

Só o resultado conta e até foi justificado pelo que as equipas conseguiram realmente produzir, com o Benfica ligeiramente superior e o FC Porto castigado pela estratégia prioritária de tentar impedir a todo o custo que o adversário jogasse como gosta.

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