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Hoje começa a Liga portuguesa e, não tivesse eu preocupações profissionais com o dia a dia do futebol, diria que não tinha dado por isso.

As redes da Liga Portugal divulgam um poster das camisolas à roda do patrocinador e perguntam qual é a preferida - estranha prioridade informativa. As primeiras páginas dos jornais, especializados e generalistas, ignoram totalmente ou apenas assinalam a agenda. O mercado e a vida de Bruno Fernandes estão por cima de tudo.

Quem se queixa de demasiado futebol na televisão, por exemplo, permanece indiferente e descansado pelo “low profile” deste assunto, a remeter apenas para o umbigo de cada clube.

Sim, o Benfica vai esgotar a Luz e pouco interessa o adversário.

Sim, os sportinguistas pensam na viagem à Madeira como se não houvesse amanhã.

Sim, o FC Porto está em transição europeia, com a cabeça nos incentivos orçamentais. Braga e Guimarães também.

Sim, “a arbitragem está muito melhor”, garantem antigos maldizentes dos órgãos federativos.

É o futebol de verão, amigável, europeu, da taça da liga (dizem-me que já começou) ou de campeonato, com jogos para a família, reencontros, confraternizações e “olas” na bancada.

A Liga começa esta noite com um palpitante Portimonense-Belenenses, sabia?

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Eusébio, Coluna e Hilário são referências da equipa mais antiga de que me lembro, da televisão a preto e branco. Além deles, nos cromos e nas gravuras do Diário Popular, sobressaíam o Yaúca e o Matateu. Ao mesmo tempo, idolatrava o Zé Mulato, um crioulo que jogou no Vitória Mindense dos anos 60 do século passado e que terá sido a primeira pessoa de cor que vi de perto.

O futebol foi, ainda no período final do salazarismo, o factor mais visível de integração e educação contra o racismo, quando as notícias filtradas pela Censura nos acicatavam contra os pretos terroristas, os turras das províncias ultramarinas.

E agora, com o século XXI em veloz andamento, continua a sê-lo, numa nova sociedade educada à pressa, pelo relevo dos protagonistas, os quais, todavia, nem sempre aproveitam da melhor forma as ocasiões que a notoriedade pessoal lhes oferece.

Alan jogou dois anos na Madeira, onde os cidadãos lutam há séculos para não serem portugueses de segunda. Dois anos no Porto, nos tempos do Apito Dourado, onde se trata os portugueses abaixo do Mondego por “mouros”. E mais outro no Guimarães e nove no Braga, onde as pessoas se chamam mutuamente de “espanhóis" e “marroquinos”.

Alan é brasileiro e de tez mestiça. Um “coloured”, como seria descrito na Imprensa desportiva dos tempos em que comecei a ler e perceber.

Há 16 anos em Portugal como profissional de futebol, descontando as vezes que lhe chamaram “preto de merda só para (o) desconcentrar dentro de campo”, Alan diz que só se recorda de um episódio em que terá sido destratado de forma racista. E foi por um espanhol, Javi Garcia, que ainda não confirmou o incidente.

Eu penso que Alan, que felizmente ouve e vê sem dificuldade, é, sim, um homem meio confundido pelo sucesso individual, porque acha que o racismo “depende do estatuto da pessoa”. Não depende. Nem da nacionalidade, nem do emblema da camisola que veste, acrescento eu.

Em todo o caso, parabéns ao país que, meio século depois da Guerra Colonial apesar das enormes diferenças sociais e com tanto ainda por evoluir,  consegue tão bem absorver e incluir brasileiros, espanhóis e marroquinos.

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Quando os sorteios da UEFA ainda não se tinham transformado no evento formatado para os burocratas da bola que são hoje, ser “enviado especial” a Zurique para acompanhar o pontapé de saída das competições europeias era uma oportunidade rara e soberana para a carreira de qualquer jornalista desportivo. 

Em nenhum outro momento era possível reunir à mesa, no então chamado jantar dos presidentes, os líderes do futebol português Fernando Martins, Pinto da Costa, João Rocha, Valentim Loureiro, Pimenta Machado, os primeiros empresários, Manuel Barbosa e Lucídeo Ribeiro, o presidente da FPF, Silva Resende, e os jornalistas, com realce para o João Alves da Costa.

Confesso uma indisfarçável nostalgia nesta evocação por dois motivos nobres que a própria UEFA destruiu ao transformar as competições de clubes no negócio que hoje é: o destaque premiado aos melhores de cada país e a convivência entre dirigentes, jornalistas e às vezes treinadores de todos os países em encontros informais sem o verniz das galas para elites.

Quando se assiste agora aos sorteios de pré-pré-eliminatórias, 2ª pré-eliminatória, 3.ª pré-eliminatória, e, em exclusivo surreal da UEFA, a playoffs antes de começarem as competições propriamente ditas, entende-se que isto nada tem a ver com a essência destas provas, agora sexagenárias como eu.

A necessidade de distribuir o excesso de lucros que os direitos televisivos estão a gerar, contentando as federações menores com uma parte do bolo, criou este monstruoso “verão de malucos” que faz movimentar dezenas e dezenas de clubes nestes 45 dias de Julho e Agosto, quando os melhores jogadores ainda estão de férias, em disputas cuja única consequência desportiva é provocar dissabores e graves problemas de equilíbrio para resto da época aos clubes grandes inadvertidamente envolvidos, como acontece com o Benfica na Champions e com o Braga na Europa League.

Nos bons velhos tempos, todos sabíamos quem eram os campeões, quem eram os vencedores das Taças e quais tinham ficado nos lugares de honra dos respectivos campeonatos. Não havia campeões faz de conta como acontece com mais de metade dos participantes na Liga dos Campeões actual. Era inimaginável alguém estar a assistir a um sorteio sem saber se determinado clube é campeão ou está de favor, como me interrogava eu perante o desfilar de emblemas no sorteio de hoje.

Parece-me necessário (e inevitável) que a UEFA regresse ao seu lugar de confederação continental e se concentre na parte desportiva que é a sua razão de existir. A UEFA tem de voltar a promover uma prova só com os campeões de todos os países e deixar a organização de uma Superliga comercial aos próprios clubes. 

No fundo, sinto saudades do tempo em que, no primeiro sorteio, se usava a designação de “pêra doce” para quase todos os adversários iniciais dos clubes portugueses. Agora, não há pêras doces, só ovos de ouro.

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