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Nos anos 80 do século passado, numa qualquer viagem com uma equipa de futebol, o saudoso Neves de Sousa criou um cumprimento entre os jornalistas, que ainda hoje utilizamos como senha privada:

- Então, tudo bem?

- Tudo tratado, só falta o dinheiro para o árbitro.

Era assim que olhávamos para os bastidores do futebol nacional há 30 anos, há 20, há 15, mas já não, seguramente, depois do “apito dourado” e do processo de profissionalização encetado com a organização do Europeu, os novos estádios, os melhores jogadores e treinadores de sempre e uma Federação prestigiada.

Neste contexto positivo, as práticas reveladas pela devassa dos emails do Benfica fazem-nos recuar décadas, à penumbra tabagista do “Calor da Noite” e do “Trombinhas”, ao pequeno tráfico de influências em que pontificavam os dirigentes das associações distritais, com as mãos na disciplina, na arbitragem e nas regulamentações, prestando contas apenas ao clube dominante. Era um pequeno tráfico mais para consumo próprio, do que para grandes negócios, um golo fora-de-jogo aqui, um pénalti ali, uma expulsão perdoada acolá, quase sempre em quantidades toleradas pela lei do mais forte, mas efectivamente em linha directa entre clubes e árbitros, pesando estes como a cocaína, o produto mais valioso deste tipo de tráfico. 

Nos últimos anos, em conjunto com um desenvolvimento modelar e ímpar da organização desportiva, das infraestruturas e dos recursos humanos, o Benfica terá cometido o erro de querer ser dominante também no lado negro da bola e, claro, deu-se mal: nunca lutes com o porco, explicava recentemente António Salvador, citando Bernard Shaw.

Todavia, continua sem se perceber como é que, na organização que terá montado, o Benfica influenciava directamente os jogos e os resultados, por mais rebuscadas que sejam as alegações sobre as entregas de camisolas, cachecóis e autógrafos nos parques de estacionamento da Luz, fotografadas por agentes secretos como se tratasse da entrega de um quilo de “produto”.

Quando Paulo Gonçalves tirou o Curso no FC Porto, o controlo dos bastidores regulamentares e do campeonato dos gabinetes era feito dentro da lei, nos tempos dos xitos, e regado a uísque velho no Conde Redondo, sempre que havia uma  Assembleia Geral da Federação. Quando avançou para o Mestrado no Boavista, aprendeu a controlar o sistema fora do âmbito associativo, através da Liga, embora com o risco de ter de entregar os chefes à Justiça para salvar a pele, em caso de crise, como aconteceu. E, finalmente no Doutoramento no Benfica, parece que conseguiu isolar o clube e os seus dirigentes de eventuais malefícios do processo, ao doar o próprio corpo ao Julgador.

O desenvolvimento “académico” de Paulo Gonçalves seria a metáfora ideal para descrever o trajecto até ao crime perfeito, evoluindo num ciclo em que as novas leis o tornavam supostamente impossível, se na prática conseguíssemos detectar e isolar a correspondência entre um cachecol e um golo fora-de-jogo, uma camisola e um pénalti, um bilhete VIP e uma expulsão perdoada. Até ver, isso ainda não pode ser entendido como “o dinheiro para o árbitro”.

 

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Nos anos em que andei pela NBA, uma das coisas que mais me impressionava era a reacção do treinador na conferência de imprensa assim que chegava a última folha das “stats”, conseguindo,  num flash, fazer leituras preciosas dos números mais relevantes do jogo, normalmente em linha com o sentimento que tinham do que se passara no campo.

Quase 30 anos depois, as folhas de estatísticas ainda não chegaram à Liga portuguesa de futebol, mas é possível acompanhá-las em tempo real em sites especializados, permitindo-nos descortinar nuances que o olho nu do espectador não detecta.

Foi, assim, com agradável surpresa que ouvi o treinador do Boavista referir-se ontem ao número de faltas cometidas pelos jogadores do Benfica (24), retratando uma agressividade que a sua própria equipa não teve, para acabar declarando ser um “dado que, parecendo passar ao lado do jogo, faz toda a diferença”.

Jorge Simão repetia o que já tinha assinalado há um ano na antevisão do jogo com o FC Porto, quando realçou que "o número de faltas" que os jogadores portistas cometiam ”condicionam muito o jogo e a possibilidade de os adversários criarem dificuldades no último terço da equipa também” - isto numa fase de muitos jogos consecutivos em que a equipa de Sérgio Conceição terminava sempre com mais faltas cometidas do que os adversários.

Ao contrário de algumas leituras que o comentário de Jorge Simão ontem sugeriu, de poder estar a criticar o Benfica, percebi que era uma mensagem para a sua equipa: “nós fizemos poucas faltas” (apenas 12).

Só lhe faltou desenvolver um pouco mais a ideia, talvez lembrando que na jornada anterior o Boavista tinha ganho em Portimão, sendo a que cometeu mais infracções (27) entre todas as 18 equipas da Liga.

Com os departamentos dos clubes cada vez mais entregues ao estudo e à ciência, com dezenas de licenciados trabalhando dados para que os chefes de equipa desenhem as estratégias mais adequadas a cada partida, cada vez faz menos sentido aquela sentença de um credenciado comentador televisivo segundo o qual “quem analisa o futebol à luz das estatísticas nada percebe de futebol”.

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