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J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

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CATARSES 2️⃣4️⃣

Ricardo Reis, o clássico “criativo” de influência brasileira e um dos craques principais do vasto plantel à disposição do seleccionador Fernando Pessoa, atacou o pecado da soberba na ode “Quero ignorado, e calmo”, uma oração à humilde gratidão, muito atual e reflexiva:
 
“Aos que a riqueza toca, o ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja, embacia-se a vida.”
“Aos que a felicidade, é sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera, tudo que vem é grato.”
 
A gratidão (e a falta dela) provocou nos últimos dias um autêntico cisma na vasta legião de seguidores desta nova igreja do Cristio-ronaldismo que vinha medrando há anos em franjas da sociedade portuguesa, primeiro como família, em seguida como claque devota, depois como seita incondicional e, finalmente, como religião de fanáticos exaltados e absolutamente intolerantes aos espíritos críticos.
Não é a primeira vez que esta conexão espiritual com o futebol se desenvolve em formato religioso. Com Pelé e os campeonatos do mundo nasceu o conceito “Deus é brasileiro”, embora perdendo de goleada para a eficácia do candomblé com seus orixás e pais de santo.
E, mais tarde, a Igreja Maradoniana, fundada em 1998 na cidade argentina de Rosário, com todos os seus preceitos em 10 Mandamentos e obediência ao divinal tetragrama D10S (Dios), que confunde o D de Diego com o seu número, e que conta os anos como a.D. e d.D, antes e depois do nascimento d’Ele:
“Diego nosso, que estás no céu, santificado seja o teu pé esquerdo…”
Por cá, é frequente ouvir que a marca CR7 é maior que Portugal, pela força dos seus triliões de seguidores, e arrisco-me a afirmar que terá mais fiéis do que muitas religiões milenares, arrastando multidões de crentes que nunca tinham sentido necessidade de empunhar a palavra e sair à liça em defesa do seu profeta. Idolatrava-se este novo cruzado por ser pacífico e magnânimo, tomando conta do mundo pela graça do seu toque de bola e pelos golos milagrosos que fazia à vista de todos, segundo os três mandamentos dos deuses do Olimpo, “mais rápido, mais alto, mais forte”.
Mas agora, nada se diz que não descambe em discussão inclemente e agressiva contra os cépticos, os ingratos, os injustos, os hipócritas, os invejosos, os mal-agradecidos, os traidores, os jagunços, os arrombados, os babacas, “essa gentalha”, para citar alguns dos epítetos com que vi e ouvi serem catalogados os que ousaram manifestar-se a favor das mudanças do seleccionador e contra o vedetismo exacerbado de um extraordinário jogador de futebol em evidente ‘off side’.
O cisma separa os indefectíveis, para quem é inadmissível questionar a infalibilidade dogmática da divindade, dos hereges protestantes que deixaram de reconhecer a autoridade técnica, táctica e física do líder espiritual, pelo menos no âmbito da selecção.
Esta vigilante e estulta “polícia da ronalidade” começa o enunciado das suas contra-ordenações por “não percebo de futebol, mas…”, convicta de que os que se colocaram do lado do “Nós” são perigosas ameaças para “Ele”.
Os blasfemos foram ameaçados de excomunhão, pelos sacerdotes e pelas vestais saídas a terreiro em desagravo do “supremo monstro sagrado esculachado pela mula (Fernando Santos)”, como eloquentemente definiu um “pastor” brasileiro do ramo universal deste reino, numa corrente de libertação no YouTube, enquanto bramava contra os golos de Gonçalo Ramos.
”Preferia Ronaldo a titular do que a vitória contra a Suíça”, afirmou urbi et orbi, na mesma linha num púlpito aberto a cabotinos, outro desses diáconos sem remédio, mortificando-se com o cilício televisivo - o cinto de arame que tritura o corpo e não o silício orgânico que combate o envelhecimento -, como penitência alheia pela longa lista de pecados e omissões averbados nos últimos tempos ao deus-homem nos terreiros do Catar.
Caríssimos irmãos, oremos, então, pelas palavras do poeta para que a compreensão acenda a luz nessas vidas embaciadas pela fama e assoberbadas pela riqueza.
Oremos pelo verbo do evangelista do Português para que a humildade ilumine e gratifique estes tempos de trevas.
 
“Quero ignorado, e calmo (Cristiano)
Por ignorado, e próprio (Ronaldo)
Por calmo, (o Futebol) encher meus dias
De não querer mais (os Golos) dele(s)”
 
Que me perdoe, o Supremo Ricardo Reis, autor de “Segue o teu destino”, por esta derradeira infâmia satânica contra a ode e a língua, religiosamente a pátria de todos “Nós”:
 
“Os deuses são deuses
Porque não se pensam”
 
FOTO instagram

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