O Porto e o Mundo

Pinto da Costa não me deixa saudades. Foi dos protagonistas mais detestáveis com quem me cruzei nestas quase cinco décadas de vida desportiva, conhecendo-o a metamorfosear-se de ninfa em percevejo, do afável e atencioso para o execrável e perigoso, ao mínimo sinal de discórdia.
Foram 42 anos de hipocrisia e manipulação sustentadas por uma excelente capacidade competitiva que, em sucessivas regenerações desportivas de sucesso, colocaram o clube num patamar elevado, embora sem correspondência em expansão popular e universal.
Mas nunca me revi no “método” que um famoso professor e visionário do nosso futebol, perante a frustração circunstancial das suas ambições em clube rival, um dia decretou “a partir de agora vai ser à Pinto da Costa”. Não entendeu, tal como outros que sofreram a mesma humilhação de ver a ciência ser goleada pela esperteza, que aquilo era obra de autor, inimitável e só possível com alicerces muito profundos no seu reduto social, como um regime totalitário que se perpetua com suas ramificações políticas e tropas de choque.
É por isso quase profético que o grande líder tenha agora caído do seu trono de sonho às mãos de um dos raros delfins que ousaram ir além da ponte da Arrábida conhecer e aprender num mundo onde a força da razão não se submeta à insanidade do poder, sem renegar a indelével matriz.
No mundo que o Porto ainda não tem.
É este, por absurdo, o involuntário legado de Pinto da Costa, ao mesmo tempo que a benevolência da memória ajuda a extirpar a sujidade das impressões digitais que ainda tiram algum brilho às pratas do museu: depois dele pode chegar quem melhor dele fará.
Foto CM
