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J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

 

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CATARSES 1️⃣2️⃣

Se ninguém pode esperar que algum jogador faça 9 dribles, 9 cruzamentos ou 9 remates num jogo, também não devia ser possível, nem admissível, que sofra 9 faltas ríspidas em 79 minutos, como aconteceu a Neymar no jogo de estreia do Mundial, perseguido pelas gárgulas da Sérvia.
Da dureza de uma “falta necessária” - como a justificou o novo inimigo público n.º 1 dos brasileiros, Nemanja Gudelj - resultou uma entorse grave nos ligamentos do tornozelo que o afasta das próximas duas partidas do Mundial e um prejuízo inestimável para o Brasil e para o próprio campeonato.
Isto é cruel: Mundial sem lesão grave de Neymar é como Carnaval do Rio sem violência.
Pela terceira vez, sofre grave trauma impeditivo em campeonatos do Mundo, bem como na Copa América de 2019, e é impossível dissociar estes azares crónicos de uma grande quota de responsabilidade pelos insucessos do “escrete” na perseguição ao “hexa”, a começar pelos 7-1 da meia-final do Brasil-2014, que teve de ver da bancada, impotente, por causa de uma joelhada assassina do colombiano Zuñiga, que ainda hoje tem a cabeça a prémio em Fortaleza.
Em estado de choque, a torcida esconjura a fatalidade com a desconfiança de quem se sente perseguido e injustiçado: ao Messi e ao Cristiano, dizem numa tv, os adversários não fazem batidas como ao Neymar!
Percebe-se a revolta, a denúncia de conspiração, apesar de a razão mais plausível ser a forma de jogar do brasileiro, viciado no drible, na firula e na “provocação”, em contraste com o sentido prático, linear e de menor exposição ao perigo do argentino ou com a fortaleza atlética do português.
Neymar aposta no “chega mais” brasileiro, na vertigem do risco, como moleque que se recusa a crescer. Messi e Cristiano são de outro coturno, sabidos e calculistas, aprenderam a antecipar as ameaças e a escapar à maioria dos contactos. Messi e Cristiano são caçadores, Neymar é presa.
No Mundial da Rússia, tornou-se Ney-même, pelo número absurdo de quedas, mergulhos e trambolhões que forçou ou a que foi forçado, gerando dúvidas metódicas, retratadas em inúmeras “insónias em carvão” sobre a verdade e os truques dos seus desequilíbrios. Dúvidas que foram plantadas no cerebelo de juízes e algozes, germinaram e dão “fruta” à discrição até hoje, o que explica, parcialmente, a indulgência de uns e a impunidade dos outros.
O Neymar caiu? Ah, está bem, levante-se, siga, siga. Com a Sérvia, foram nove faltas (num total de 12) e mais três ou quatro escaparam no crivo. Convenhamos, uma falta sofrida a cada dez minutos não é jogo, é martírio.
Este número é superior aos de Maradona, que detém o recorde das três maiores médias de faltas sofridas em Mundiais (em 1982, 1986 e 1990), sempre acima das 7 por jogo: no primeiro acabou expulso quando se fartou da marcação impiedosa e se vingou no brasileiro Baptista, no segundo sobreviveu à perseguição de ingleses, belgas e alemães e no terceiro acabou a disputar a final ao pé coxinho, com uma lesão igual a esta última de Neymar, o que custou o terceiro título à Argentina.
Neymar podia ser o melhor jogador brasileiro depois de Pelé e Zico, talvez acima de Ronaldo Fenómeno, e teria tido uma carreira inolvidável se lhe fosse possível conjugar o talento com a integridade dos membros inferiores, mas desde que chegou a Barcelona em 2013, sofreu 24 lesões, dez das quais traumáticas em ambos os pés. Só nas últimas cinco temporadas esteve de baixa 598 dias: impedido de jogar em um de cada três dias e, mesmo assim, chegou a este Mundial ainda como membro emérito do triunvirato de honra.
É muito azar, há que desconfiar de tanto azar!
Se à FIFA interessasse tanto a saúde e a aptidão física dos atletas como interessa a segurança das contas financeiras, já teria promovido um Fair Play Verdadeiro, uma regulação sob o pungente mote “Deixem jogar o Neymar”, pelo rigor do jogo, pelo castigo exemplar, por exemplo suspendendo o agressor enquanto a vitima estivesse impedida, de modo a inibir a brutalidade dos sérvios desta vida contra os tornozelos dos protagonistas.
Foi feito algo há 30 anos para proteger os tendões de Aquiles, agora esperemos que não seja preciso van Basten “morrer” de novo.
O mal está feito, resta aguardar o restabelecimento do garoto paulista, que promete voltar nos “oitavos”, quem sabe se frente a Portugal, pois “brasileiro, com alma de guerreiro, não cansa de lutar”, como diz Seu Jorge, o cantor: “tropeçando e levantando, sempre com você”.
 
FOTO CNN/Getty Images