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J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

EFABLAÇÃO (22)

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“Seis da madrugada.

A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.

Defende-se à dentada

Da vida proletária, aristocrática, burguesa.”

 

Como no poema surrealista de António José Forte, o Benfica-Porto transportou para a noite escura o benfiquista febril, assustado, perdido, sem pressa de chegar seja onde for, olhando a multidão, suavemente, com horror.

Durante semanas, meses, o sucesso inesperado do Benfica de Roger Schmidt foi associado à fraqueza ou incompetência dos adversários sucessivos. Dizia-se, como pensamento desejoso, “quando enfrentar uma equipa a sério…”

Mas a sequência de vitórias prosseguiu, disfarçando fiascos comprometedores nas taças domésticas que não chegaram para dúvidas nem angústias. O nível exibicional manteve-se alto, por vezes excelente, e o entusiasmo deu lugar à euforia, em função do inusitado avanço de dez pontos. O despertar das segundas-feiras era um poema surreal.

Ora, no dia em que se preparava para chancelar a conquista do título, o Benfica encontrou finalmente um adversário muito superior, abafador, inclemente, esmagador. E voltou a não vencer em casa um rival, como já acontecera frente ao Sporting, surpreendido, aturdido, desligado, perante um estádio da Luz à cunha - o “luar terrífico (que) vela o seu passo transtornado”, como no poema do “mano Forte”.

 

“Sonâmbulo, magnífico

Segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.”

 

A competitividade da equipa de Sérgio Conceição, com uma personalidade colectiva inconfundível e inimitável, de faca nos dentes e capacidade de pressão quase irrespirável, reduziu à vulgaridade jogadores e soluções que chegaram a maravilhar em muitos jogos da temporada, inclusive frente a adversários internacionais poderosos. 

O que se passou?

Na minha visão, apenas uma enorme diferença de maturidade e classe, entre o que se vê e o que se deseja, entre o real e o surreal. O meio campo do FC Porto é servido por jogadores de nível internacional, com larga experiência dos grandes ambientes, e esse “pedigree” marca diferenças: Florentino e Chiquinho, provavelmente, nunca jogarão numa seleção nacional, João Mário está na segunda linha, Rafa perdeu-se nos seus labirintos mentais, Aursnes é um epifenómeno. Todos acusam negativamente a intimidação física e a falta de espaço de manobra, a faca nos dentes aterroriza-os. 

Otamendi à parte, nenhum jogador do Benfica se sentiu “confortável” no tipo de jogo que, em menos de cinco minutos, já tinha passado de proposto a imposto pelo Porto, obrigando a quase duas horas de aflição permanente, pela insegurança competitiva, pela inferioridade física e pelo absoluto bloqueio táctico, inclusive nos minutos em que esteve em vantagem no marcador.

Não era tudo excepcional antes deste jogo, foi tudo medíocre durante o jogo, mas não estará tudo mal no futuro do Benfica - a passar de nova derrota com um candidato ao título para uma importante eliminatória na Liga dos Campeões, prova em que permanece invicto.

A equipa do Benfica melhorou muito, colectivamente, com Schmidt, mas o plantel mantém várias deficiências, para um nível de exigência mais elevado, que os resultados vêm disfarçando: um guarda-redes que ganhe pontos, um lateral direito (e outro esquerdo, se Grimaldo sair), um médio centro que dinamize o jogo e imponha o ritmo quando o adversário bloqueia o ataque rápido, dois extremos com objectividade e profundidade e um avançado que discuta a titularidade e não retire poder ofensivo quando entra em campo.

Haverá quem se limite a acreditar que foi só uma tarde má, “para esquecer”, e que os sete pontos de avanço dizem muito mais sobre a realidade das equipas do que este acidente singular. Porque o Benfica tem sido mais regular, mais eficaz, vencendo mesmo quando não convence. Mas que ninguém pense que o Porto foi e será o único adversário ”a sério” neste final de temporada tão exigente, regressando de seguida à rotina dos opositores sem facas nem dentes que atapetaram o caminho inicial da época. 

Cair na real e assumir:

 

“Pelo meu relógio são horas de matar

De chamar o amor para a mesa dos sanguinários.”

 

FOTO Joaquim Machado/ANoticia.pt

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