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J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

13 Jun, 2023

Cabeças de javardo

HISTÓRIAS SEM INTERESSE NENHUM (9)

costa.jpegBem-vindos à era abaixo de porco na comunicação política, cujos novos e futuros líderes foram gerados e medram num caldo sociológico e orgânico que se confundia com as claques dos clubes de futebol, orgulhosos de manifestações da maior alarvidade e da mais profunda intolerância.
Vem aí uma campanha eleitoral com slogans do tipo “PS é merda”, “PSD filhos da puta PSD” ou “Somos ultras, f**emos comunistas”.
Com a indulgência social quanto às virtudes da “escola” do futebol, as juventudes partidárias recrutam nas mesmas academias de “formação” das claques, partilham os seus mestres mais “criativos”, aprendem os mesmos cânticos e macacadas a que chamam “coreografias”, desenvolvem o mesmo prazer pelas vitórias a qualquer preço, distinguindo a “nossa” esperteza da ilegalidade “deles” e cultivando pelos adversários o mesmo desdém, rapidamente consolidado em ódio.
Se, por exemplo, antigos chefinhos de claque alcançaram o topo de hierarquias mediáticas, como a direção de jornais ou de agências de comunicação, onde constroem e perpetuam linhas de influência duvidosa, é lógico que se sentem também ao volante de organizações políticas com projetos de poder - como aprendizes de guru que se dão ao desfrute de eleger presidentes.
Durante décadas, os responsáveis políticos e judiciais fecharam olhos e ouvidos à brutalidade gratuita e aos crimes quotidianos de racismo, xenofobia, misoginia e propaganda do ódio da agenda das claques desportivas. Não só foram indulgentes com estas escolas de “pequena” criminalidade, da qual degeneraram alguns casos de extrema gravidade, como, a partir de certa altura, começaram a apoiá-las implicitamente nos painéis televisivos onde passaram a sentar-se autênticos “hooligans” da palavra, juntando-se sem pudor a quem não eram capazes de dominar.
É por isso com espanto que acompanho a súbita indignação da classe política bem instalada contra meia dúzia de energúmenos numa “caixa de segurança” a dar uma “dura” ao primeiro ministro, como se estivessem à porta do estádio em dia de derrota a gritar “palhaços, joguem à bola”.
Uma vaia pública à jovem promessa que afinal é uma mentira, a impaciência com o ponta de lança perdulário, a exigência de demissão do treinador teimoso e uma tarja ofensiva reduziram Galamba, o ministro da Educação e o Primeiro Ministro, bem como a jornada gloriosa do 10 de Junho, a apenas mais um dia no peão do topo norte para esta claque, perdão, para esta classe dos profissionais do protesto, outrora conhecidos como sindicatos.
Para quem tivesse acabado de sair de uma bolha, onde conviveu apenas com civismo e respeito, mesmo na discordância ideológica, a javardice na comunicação das arruadas assumiria realmente foros de escândalo. Mas, pelo contrário, eles andam por aqui desde sempre: ouviram, viram e leram e fizeram questão de ignorar.
Foi a “classe política“, incluindo o sector dos moralistas jurídicos instalados nas instâncias de supervisão, que, por omissão ou inação, deixou crescer o monstro da arruaça e da coação que sequestra agora a sociedade democrática, ao admitir os excessos no futebol como um “válvula de escape” para as agruras da vida.
Cabeças de porco há muito voam nos estádios, como metáforas eruditas, e afiguram-se apropriadas para o ajavardar intelectual da política, como defende o distinto professor de arte, estética e semiótica que concebeu o cartaz “polémico” da Régua. Espete-se-lhe um lápis num olho, dê-se-lhe uma tonalidade escura e uma palavra de desordem - e aí está a coreografia perfeita: “é ganhar, car********!”
Nada de novo, portanto. Como dizia um treinador cujo nome não me assiste: habituem-se!

FOTO José Coelho/Lusa

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