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J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

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CATARSES 1️⃣5️⃣

Se a etimologia gótica do nome Fernando [Fardi+Nand] estiver certa e realmente significar “pronto para a viagem”, como me diz a sábia internet, terei desvendado o mistério da ousadia do sócio-gerente da FEMACOSA ao propor-se, com a benção de todos os Santos, só regressar a casa depois da final do Mundial, como já fez no Europeu de 2016.

Os Fernandos heróicos ocupam um lugar especial no coração dos portugueses. Fernando de Bulhões, o Santo António de Lisboa, D. Fernando I, o Rei Formoso, primeiro grande diplomata e reformista agrário e tributário, Fernão Lopes, o patrono dos cronistas, Fernando Pessoa, o poeta universal, Fernando Chalana, o pequeno génio, Fernando Gomes, o goleador cavalheiro. E, até, um Fernando selecionador, a edificar contra todos os oráculos e videntes, um património de troféus que vai pesar insuportavelmente nas costas de quem o herdar: “depois de mim virá…”

Todos fizeram extraordinárias viagens, foram campeões dos seus enormes desafios, exemplos para gerações e gerações. E do primeiro Fernando que se conhece, um nobre do Condado Portucalense que viveu dois séculos anos antes de Afonso Henriques, descenderam os cerca de 300 mil Fernandes dos nossos dias que constituem uma das maiores famílias patronímicas - o mais famoso dos quais é hoje o número 8 da seleção de Portugal, Bruno Fernandes, a extensão em campo do treinador Fernando.

Para quem acredita na generalização das personalidades por efeito do nome ou em função astronómica do dia e hora em que se nasce, estaria escrito nas estrelas o sucesso das arábias de Bruno Fernandes, legítimo novo Conde de Portucale, nascido na Maia, portanto natural sucessor do “Lidador”, o herói que, segundo a lenda, morreu na luta contra os mouros.

“Batalhador incansável, equilibrado e determinado, que leva até ao fim tudo o que começa”, diz a matriz dos Fernandes. “A sua persistência faz com que consiga quase sempre resultados positivos”.

Por estes dias, chegou-me a história dos primeiros sete meses de Bruno Fernandes em Itália, vivendo em retiro na academia do Novara para poupar os escassos 50 euros que a mãe lhe pôde dar para a viagem em busca do sonho que decidiu empreender no final da adolescência. Não tinha dinheiro, mas tinha vontade - e isso bastou-lhe. Estava tão pronto e seguro de bolsos vazios como está hoje, milionário e reconhecido, mas humilde que baste para aproveitar as boleias no avião do parceiro a quem paga com subtis retoques no penteado.

Se juntarmos a proverbial tendência “esperta, culta e audaciosa” dos Fernandes, ao significado de Bruno, outro nome germânico que quer dizer “polido, com lustro”, descrevemos uma personalidade de pioneiro com grande visão, que explica esta afirmação como líder de dimensão mundial, com participação decisiva em quatro dos cinco golos de Portugal no Catar. 

Bruno Fernandes cresceu à margem dos sistemas de formação dos grandes clubes portugueses e das seleções jovens, ao contrário de quase todos os nascidos em Portugal que estão em Doha, e foram essas qualidades de autodidata que lhe permitiram aprender a falar italiano, castelhano e inglês tão fluentes como todos os segredos da função de centro-campista moderno, entre o “trequartista”, desenvolvido em Itália, e o “box-to-box” universal que é hoje. 

As mesmas esperteza, cultura e audácia a que apela para transformar os penáltis que o guarda-redes Antony Lopes, colega da seleção, ontem etiquetou como “impossíveis de defender”. Se Panenka não tivesse existido, estaria por estes dias a reclamar um novo penálti de autor que talvez o marketing social não lhe reconheça, por falta do efeito surpresa. Mas um dia será estudado: o penálti à Panenka qualquer um pode marcar, é apenas uma “cavadinha” a direito e defensável; o penálti à Bruno Fernandes exige uma coordenação motora e um domínio dos nervos muito especiais, com efeito desconcertante e praticamente infalível.

Com 28 anos, antes de se tornar num treinador esperto, culto e audaz como sugere a facilidade com que comanda as operações dentro do campo, Fernandes, o “afilhado” de Fernando, ainda está a tempo de compor um currículo ao nível da sua qualidade, por enquanto deficitário por causa das escolhas menos criteriosas de clube, que foi fazendo. 

Bruno Fernandes só ganhou até agora uma Liga das Nações, por Portugal, e uma Taça de Portugal e duas Taças da Liga, pelo Sporting - muito pouco para tanto futebol.

 

FOTO Sapo/AFP