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J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

 

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CATARSES 8️⃣

Não é por causa de um jogo que a ordem futebolística mundial vira do avesso, mas a vitória da Arábia Saudita sobre a Argentina será vista no futuro como um ponto de mudança, o marco para um a.C. e um d.C., o antes do Catar e o depois do Catar. A Arábia Saudita nunca será uma grande potência futebolística, mas deveremos passar a vê-la como uma fonte inesgotável de dinheiro a financiar a visão de conquistar politicamente o mundo (também) através do Desporto.
Está em marcha há sete anos a Saudi Vision 2030, que consiste em mudar o paradigma social dos sauditas, melhorando o seu estilo de vida, nomeadamente através do incremento do acesso ao desporto, com as melhores infraestruturas e os melhores profissionais, com três eixos de influência: divulgação, investimento e performance. Entrou neste pacote a contratação de treinadores, com um determinado currículo, mas de segundo plano, como Jorge Jesus ou Leonardo Jardim, que já levou o Al Hilal a campeão da Ásia em 2019 e 2021, de jogadores com idêntico perfil “periférico”, como Talisca, Marega ou Matheus Pereira, a aquisição de clubes europeus, grandes mas não muito, como o Newcastle, com potencial de crescimento, a construção pelas cidades das melhores estruturas desportivas e a colagem da imagem do nome do país a grandes eventos mundiais.
A aposta no golfe, por exemplo, já está a dar cabo da ordem mundial da PGA e do European Tour, com o LIV Golf a conseguir contratar alguns dos melhores jogadores, como Dustin Johnson, Phil Mickelson ou Sérgio Garcia, provocando um cisma de consequências catastróficas para a modalidade, a troco de mais de mil milhões de euros só no primeiro ano (apenas 8 torneios). Idêntico processo está em curso através do “fuelling” da Aramco na Fórmula 1, cujo eixo de influência se vem movendo progressivamente da Europa, restritiva e falida, para um Médio Oriente financeiramente desregrado.
Eles não estão preocupados por não existirem jogadores de golfe ou pilotos sauditas, mas acreditam que a associação aos melhores acabará por dar frutos. Enquanto vão considerando como “seus” aqueles a quem pagam, a evolução dos atletas locais será a derradeira consequência da aposta nos melhores, num país de quase 40 milhões de pessoas, onde a prática desportiva era de apenas 7 por cento.
A contratação de Cristiano Ronaldo pelo “Fundo de Investimentos”, a famosa máquina de “sportswashing” de Riade, a troco de mais de 100 milhões de euros por época, não pode portanto ser vista como inverosímil. Lionel Messi, o grande derrotado de ontem, recebe um balúrdio apenas como “embaixador do turismo” saudita.
Eles vão insistir durante o tempo que for necessário com os seus potes de ouro negro como fizeram com o golfe através da orientação de Greg Norman, o famoso “the Shark”, espécie de ícone deste tubarão do deserto comendo o mundo do desporto - a oferta a Tiger Woods, mesmo coxo e velho, já vai nos 750 milhões de dólares.
Estive uma vez durante duas semanas na capital saudita, no pós Guerra do Golfo, a cobrir uma das primeiras Taças das Confederações, com a Dinamarca dos manos Laudrup campeã europeia e, curiosamente, a Argentina de Passarella, campeã sul-americana. Quinze dias com todos os estrangeiros enclausurados num hotel de luxo francês e no estádio monumental do Rei Fahad, espécie de templo de mármore de Carrara no meio do deserto, vendo a CNN com cortes e lendo jornais europeus com três dias de atraso e censurados com graxa preta ou páginas rasgadas, a segregação das mulheres e o exacerbado culto religioso, numa cidade de arquitectura espectacular mas árida e sem vivalma. A Arábia Saudita ficou como o único país do mundo a que eu não gostaria de regressar, pois aquilo era a Idade Média transportada para um cenário futurista de Hollywood, completamente anacrónico, um atraso de vida quando comparada à ocidentalização dos minúsculos vizinhos, Kuwait, Barhein, Catar ou Emirados.
Mas agora ouço muita gente dizer que está a abrir-se ao Mundo, que tudo vem mudando e que até as mulheres têm ginásios para praticar desporto a recato dos mirones, podem conduzir um carro ou ver um espectáculo sem um tutor masculino.
Se em Casablanca, a Meca do ocidente, já é possível um católico visitar a Grande Mesquita, construída pelos sauditas à beira do Atlântico, até o turismo de “infiéis” na cidade santa eu admito como possível, algures neste século, com a quebra dos rendimentos dos combustíveis fósseis obrigando os árabes a descobrir o petróleo da centralidade política.
O Rei decretou dia feriado pela vitória sobre a Argentina, a assinalar o nascimento da era do futebol a.C. É evidente que o mundo do desporto profissional, como o do golfe e o da Fórmula 1, nunca mais será o mesmo.
 
FOTO Sports Illustrated/AP

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