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Há décadas, instalou-se no FC Porto a ideia de que a definição de perigosos inimigos externos é excelente para reunir as tropas e ganhar “contra tudo e contra todos”. Quanto mais nos hostilizam, mais nos unimos - era a receita infalível que, acreditavam, fornecia aquele extra de energia necessária para chegar aos títulos.

Começou no atavismo provinciano, a síndrome da ponte da Arrábida denunciada por Pedroto, prosseguiu no toque à insurreição, sob a bandeira da Regionalização confundindo-se com a ambição política dos caciques locais, avançou para o ataque declarado ao poder central, a fantasmagórica capital do Império, e culminou na guerra civil contra um parceiro de negócio, o gigantesco Benfica. Foram tempos de agressividade declarada, mas frequentemente dissimulada por tiradas de humor cáustico e bizarro, que nalgum momento os basbaques de serviço definiam como “fina ironia” do chefe máximo.

Em todas estas sucessivas fases de guerra aberta esteve sempre presente e viva, em paralelo, uma frente de guerrilha contra a comunicação social, primeiro os jornais desportivos, agora as televisões por cabo, com tácticas de inteligência subterrânea, tão díspares como a informação zero dos blackouts do século passado ou as overdoses de dados roubados pelos amigos hackers de hoje. 

São 30 anos de luta, bem recompensados por ciclos triunfais que, contudo, nada devem a esse vício diminutivo do confronto permanente, mas sim a grandes treinadores, jogadores e outros profissionais, que por lá foram passando. Foi a “organização” desportiva do FC Porto que conquistou os títulos nacionais e internacionais, mas sem nunca conseguir eliminar o complexo de inferioridade dos principais dirigentes, o qual impediu o clube de crescer como seria suposto e justificado e se transformar no maior do país.

Os episódios dos últimos dias, ainda difíceis de entender por inteiro, dão sinais de um descontrolo imenso que conduz o FC Porto para um destino incerto, faltando imaginação para deles desenrascar um dichote que pudesse ser lido também como humor inteligente. A derradeira fina ironia desta história gloriosa já está a tardar.

Embora haja abencerragens que só consigam ver incidentes de contra-informação e desinformação por parte dos adversários, os equívocos deste defeso apontam para a época mais difícil dos últimos 30 anos. A saber, sem ser exaustivo:

> a substituição de Casillas

> a descontratação de Bruma 

> a recuperação de Marcano

> a avaliação de Nakajima 

> a revelação de Zé Luís

> a tentação por Fábio Coentrão

> a desautorização de Danilo

Há em todos estes episódios recentes, na sequência de outros que evidenciam uma enorme fragilidade da tal “organização”, uma linha de actuação aparentemente negativa e insatisfatória para cada vez mais adeptos. Aliás, eu vejo-a como profundamente negativa, mas não menosprezo quem está por trás de tudo.

Provavelmente, como é da tradição, segue-se uma ordem a reunir, “contra tudo e contra todos”, e muita fé no triunfo final. Se o conseguir, se o FC Porto emergir desta pré-época delirante como campeão e triunfador, teríamos de elevar os responsáveis por esta mixórdia de avanços e recuos à condição de génios da estratégia.

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