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Não partilho do entusiasmo com que nos diversos programas televisivos diários dedicados ao Mercado de futebolistas se projecta invariavelmente os alvos estrangeiros dos principais clubes como grandes estrelas, do presente ou do futuro.

Parto do princípio que se fossem tão bons como os pintam não vinham para Portugal.

E a análise primária diz-nos que os mais jovens não têm experiência que assegure alto rendimento imediato e os mais velhos vêm em busca de relançamento das carreiras, todos procurando apenas servir-se do prestígio dos nossos três grandes clubes como alavanca para a vida profissional. 

Defendo a tese de que 80 por cento dos contratados sofrem desvalorização irreversível ao fim do primeiro ano. Não digo que todos sejam “flops”, mas são claramente inflacionados pela manha dos agentes, pelo oportunismo dos “scouters”, pela incompetência dos dirigentes e pela conivência dos media. E acabam a sair pela porta pequena, deixando um rasto de prejuízos na proporção inversa dos lucros obscenos dos negreiros envolvidos.

Se, por exemplo, Oliver Torres estivesse a chegar a Portugal neste momento por 20 milhões de euros não haveria limite para as hipérboles descritivas do seu enorme talento. E no entanto, na hora de saída, com desvalorização de quase 50 por cento e críticas carregadas de cinismo a justificar o “bom negócio” do FC Porto, ninguém ousa recordar que chegou campeão europeu de sub-19 e tendo estreado na primeira equipa do Atlético de Madrid com apenas 17 anos. Apesar do razoável rendimento desportivo, foi apenas mais um da enorme maioria que não se valorizou e não conseguiu corresponder ao investimento feito nem às promessas dos olheiros que o avalizaram.

Quando tinha apenas 19 anos, alguém descreveu Oliver Torres como um “criativo dono de uma técnica apuradíssima, um desequilibrador nato, de grande classe, que faz a diferença pela superior qualidade técnica no drible e condução de bola, e pela assinalável precisão no passe, velocidade de execução e acerto na tomada de decisão”.

À chegada, em 2014, lia-se no site oficial do FC Porto: “Oliver Torres tem alma de artista. Às vezes pinta, outras desenha e dança quase sempre”.

À partida, em 2019, ouve-se no Porto Canal: “Só foi verdadeiramente útil para Sérgio Conceição quando os outros médios não podiam jogar”.

O caso do espanhol que sai do Dragão sem brilho - mas chega a Sevilha, ironicamente, reabilitado como um grande craque - nada tem de excepcional, antes é um paradigma do que acontece aos mais pintados neste carrossel da fama.

Mas a quem aparece num espaço mediático destinado a criar esperança, será muito difícil levantar dúvidas ou prever o fiasco de determinado jogador, ainda mais com “pedigree” internacional como tinha este espanhol há cinco anos,  num contexto de entusiasmo irracional dos espectadores e adeptos em momento de decisão no processo de renovação dos bilhetes de época. Nem sequer se pode perder tempo a contextualizar o espaço que cada candidato a estrela pode, efectivamente, disputar na galáxia do novo balneário.

A inclusão de determinado jogador estrangeiro, até por valores completamente desajustados, já não se destaca em plantéis em que os portugueses estão em minoria. Os estrangeiros são recebidos tão bem, que nem precisam de se evidenciar, pois as facturas são entregues e pagas antes da mercadoria. Neste negócio, ganha-se antes de produzir: é um craque estrangeiro, dá cá 20 milhões!

Passaram os tempos em que os jogadores estrangeiros eram excepções e ninguém tinha margem de erro no momento de contratar. O início da internacionalização do futebol português coincidiu com a Revolução de 1974, com o fim da “lei de opção”, com a liberdade social e com a reabertura de Portugal ao Mundo: encerrou o filão das colónias africanas e descobriu o El Dorado sul-americano.

Lembro-me da contratação de Cubillas pelo FC Porto como um momento realmente extraordinário, fosse pelo preço, então decantado pelos jornais ao centavo - salvo erro eram 11 contos (55 euros) por dia - fosse pela classe do jogador peruano, um dos dez melhores do Mundo, na altura. E também recordo a primeira venda de um clube português por valores que hoje seriam classificados de “estratosféricos”, no caso a transferência de Yazalde do Sporting para o Marselha, a seguir ao Mundial de 1974. 

Cubillas e Yazalde eram internacionais de nível mundial, estrelas de brilho intenso, como raramente voltámos a ter nos clubes portugueses, devido à massificação descontrolada que a liberalização dos mercados e o negócio das percentagens veio potenciar no final do século passado.

No início dos anos 80, o Benfica também acabou com a norma anacrónica de só alinhar portugueses e eu próprio, já como jornalista, lembro-me de ter feito a primeira entrevista a Filipovic, o primeiro “realmente estrangeiro” e igualmente uma vedeta internacional, em pleno relvado da Luz, sem holofotes, nem “directos”, nem atropelos mediáticos.

Os negócios eram feitos à margem do grande público e surgiam na imprensa de verão à cadência dos trissemanários - toda a gente tinha mais que fazer do que acompanhar o vai-vem dos craques à velocidade do twitter. 

O engraçado é que ninguém se atrevia a adjectivar um Yazalde, ou um Cubillas, ou um Filipovic com metade dos superlativos que hoje acompanham as fichas dos “alvos” do mercado, para enquadrar os milhões do transfermarkt. Não havia Youtube, nem sequer VHS, só autêntico prestígio internacional, provas dadas ao mais alto nível e seriedade.

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A ex-deputada europeia Ana Gomes não podia ter escolhido um momento mais oportuno para chamar a atenção sobre os negócios do futebol profissional, talvez a única indústria portuguesa com uma balança de pagamentos a ocupar, neste preciso momento, o primeiro lugar num ranking mundial, o das transferências de jogadores.

O “cluster” do futebol, como lhe chamou Michael Porter há 20 anos, é a nossa actividade mais prestigiada, com selecções, clubes, jogadores, treinadores e dirigentes profissionais, sem esquecer os poderosos agentes, a surfarem a maior onda de sucesso de que há memória.

Os movimentos dos mercados futebolísticos internacionais são hoje facilmente monitorizados e analisados, deixando pouca margem de manobra para os hackers amigos da ex-deputada do partido do Governo. Qualquer leigo pode, a todo o momento, verificar os fluxos de dinheiro, as vendas, as compras, as percentagens, as influências. Não deve haver outra actividade económica tão escrutinável, nem sequer a dos mercados financeiros tantas vezes influenciados por negócios fictícios e informações especulativas.

No mercado do futebol, a especulação pode servir aos media, mas tem pouco peso nos negócios. Só o que se compra e o que se vende assume real valor, tudo o resto esgota-se nas mesas de café e nos “chats” da pirataria informática.

Ao fim do primeiro mês do mercado de verão, o futebol português regista um saldo positivo de 209 milhões de euros, de longe o maior entre todos os países. Segue-se a França com 155, já com a venda de Ndonbélé incluída, a Holanda com 101, a 2.ª Liga alemã com 89, a Áustria com 62 e o Brasil com 58. No top 10 das Ligas mais lucrativas no mercado de jogadores, encontram-se quatro campeonatos secundários - além da alemã, também as 2.ªs divisões inglesa, espanhola e italiana.

Mas no plano oposto, com saldos negativos entre vendas e compras de jogadores, são precisamente as Ligas principais de Inglaterra (-298 milhões), Espanha (-297), Alemanha (-210) e Itália (-108) as que apresentam maiores défices. A liga da Rússia é a quinta com mais despesas do que receitas (-52 milhões).

Até ontem, a Liga portuguesa registava quase 300 transferências, com despesas de 75 milhões e receitas de 284 milhões. Com mais uma ou duas vendas de peso, Portugal poderia tornar-se no “campeão” deste Mercado, em 2 de Setembro, embora a transferência de Neymar deva desequilibrar a favor da França, se não houver um investimento semelhante em sentido contrário.

É evidente que os clubes portugueses estão a vender muito bem e a saber comprar: neste momento, o Sporting é o único dos 18 clubes da 1.ª Liga com um evidente saldo negativo entre dispensas e aquisições, mas podendo reverter facilmente a situação quando vender Bruno Fernandes. O Sporting apresenta um saldo de -18 milhões, contra os 144 milhões positivos do Benfica ou os 51 milhões do FC Porto.

Marítimo, Guimarães e Rio Ave também estão no vermelho, mas por margem residual inferior a um milhão de euros, enquanto a soma do lucro dos restantes 12 clubes da Liga NOS, com o Braga à cabeça, ascende a 31 milhões de euros.

No final do século passado, o guru da Economia mundial Michael Porter aconselhava Portugal a apostar no que sabia fazer melhor, como estratégia de crescimento, e incluiu o futebol entre os “clusters” que nos podiam trazer fortes dividendos no novo milénio. Era esperto o professor Porter.

É incrível como, vinte anos depois, ainda temos decisores políticos que não o perceberam.

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A dois dias do regresso ao trabalho, o plantel do FC Porto parece debilitado mas, simultaneamente, protegido por um manto de silêncio um pouco diferente do que antigamente se considerava uma extraordinária capacidade de gestão de informação. Há três dias que o Porto Canal não diz uma palavra sobre o plantel de Sérgio Conceição e os meios tradicionais agem como se a ausência de notícias não fosse, neste caso, uma grande notícia.

O FC Porto perdeu Militão, Maxi Pereira, Felipe, Herrera, Brahimi e, provavelmente, Casillas, pode ter de abrir mão de Alex Telles, Soares e Marega e vai enfrentar o dificílimo começo de temporada sem Pepe. Da equipa titular da final da Taça de Portugal, último jogo disputado, restariam apenas três jogadores, Vaná, Danilo e Otávio.

Até agora, apenas foi encontrado no argentino Saravia o substituto do lateral direito uruguaio e promovidos os regressos de jogadores dispensados na última época, como Sérgio Oliveira ou Osório. Todos os outros postos estão em aberto.

Um panorama assim num clube de Lisboa seria caótico e abriria uma crise mediática sem precedentes.



O lema “a Norte nada de novo” está a ser cumprido pelos media nacionais com todo o rigor e respeito. Nos últimos dois programas “Mercado” do Porto Canal, os temas em análise foram João Félix, Diego Souza, Vietto (na 5.ª feira) e reforços do Famalicão, Rafael Camacho e Jhonder Cádiz (na 6.ª feira), assuntos que imagino tirarem o sono aos adeptos portistas.

As últimas informações na televisão do FC Porto sobre a própria equipa foram dadas no dia 26 com o mesmo entusiasmo da aquisição de Eduardo pelo Sporting e de Ruben Semedo pelo Olympiakos de Atenas: a fuga de Bruma e do seu empresário, homens sem palavra, e a promessa de aquisição de Nakajima, realçando que consideram o japonês muito melhor que o guineense, mas sem notar que o asiático custa o dobro do africano!

Do que se sabe, o FC Porto já perdeu neste defeso o guarda-redes Koubek, o lateral-esquerdo Iago, o médio Léa-Siliki, o extremo Bruma e o avançado Roger Guedes e está à beira de não conseguir contratar o avançado Zé Luís, motivo de um insólito bate-boca entre presidente e treinador no mesmo canal televisivo. E sem esquecer as movimentações por Mangala ou Buffon, cujas contratações não tinham pés nem cabeça.

A incapacidade de a SAD portista enfrentar o mercado e de revalidar os contratos das suas principais figuras, perante as limitações impostas pelo Fair Play financeiro, foram disfarçadas nos últimos dois anos com a negociação de jogadores de terceira categoria, alguns aceites humildemente por Conceição, mas o fim dos contratos das principais estrelas veio por a nu uma situação realmente preocupante, num cenário de cinco campeonatos perdidos em seis anos. Talvez nos próximos dias se comece a falar disto…

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