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J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

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Andam por aí umas bolachas de marca branca a que chamam Belgas que não passam de massa de ovos, farinha, manteiga, açúcar e uma pitada de baunilha, portanto, meio enganosas aos paladares que já tenham passado por alguma confeitaria de Antuérpia.

Diz a publicidade que a última bolacha do pacote é tão boa que nos faz chorar por mais e desejar abrir um novo pacote e que o segredo da receita, em vez do chocolate belga, é o Amor de quem amassa os ingredientes.

Devem ter sido mal interpretadas as lágrimas dos portugueses no final do último Mundial, para os pasteleiros da Federação Portuguesa de Futebol recorrerem agora, com um amor esquisito pelas tradições nacionais, à mesma receita pobre dos “waffles” crocantes para degustar os amargos de boca deixados pelos biscoitos FEMACOSA, com a contratação de Roberto Martinez. 

Trocam-se as últimas bolachas, mas o pacote é o mesmo.

Roberto Martinez, treinador de currículo muito pobre, protegido pela poderosa plataforma de emprego da FIFA, tinha já provocado horror e estupor de francófonos e neerlandófonos quando foi nomeado selecionador da Bélgica para seis anos em que se equilibrou com uma falsa sensação de êxito no topo do absurdo ranking Coca-Cola, em contraste com os repetidos fracassos nas grandes competições: nem no Europeu e nem nas duas Ligas das Nações correspondeu a tal responsabilidade.

Seis anos à boleia do 3.º lugar na Rússia, à frente da geração de Courtois, Vertonghen, Witsel, Hazard, de Bruyne e Lukaku, todos então no auge das suas carreiras e ainda sob a liderança de Kompany. À semelhança do que aconteceu a Fernando Santos com Portugal, a qualidade dos jogadores era tanta que a Bélgica chegou perto da final do Mundial, o que ajudou a manter Martinez no posto por mais um ciclo, até cair com estrondo no Catar.

Ele era a manteigada desenxabida a que a Federação belga mais tarde teve de ajuntar o chocolate, tentando, com Thierry Henry, dar ao pacote o equilíbrio que faltava numa mistura de egos e vedetismo que terá redundado em caos no último Mundial, num balneário ainda mais problemático do que o de Cristiano Ronaldo.

Respondem-me: a Bélgica tem dominado o ranking Coca-Cola.

Sim, nos meses em que não há grandes competições para disputar, nas fases de qualificação, a selecção de Martinez chegava a impressionar, com uma espinha dorsal que absorvia e disfarçava muitos jogadores de qualidade média, embora com um sistema táctico de 3x4x3 que não se enquadra na escola da Cidade do Futebol - o que ainda adensa mais o mistério desta aposta.

O belga até disse, ao despedir-se no Catar, que os “verdadeiros adeptos” da Bélgica adoravam a maneira como a seleção jogava e que isso era um legado mais importante do que os títulos. Talvez seja o que a FPF procura: agradar aos "verdadeiros adeptos” e compensá-los por seis anos de futebol abaixo do nível.

Portugal tem ingredientes futebolísticos para servir doçaria “gourmet” que acompanha melhor com chá do que com coca-cola. Só lhe falta o “topping” do carisma de um confeiteiro de cinco estrelas que, obviamente, Martinez está longe de ser. 

FOTO Record

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Se Alex Ferguson fosse o “gestor” da selecção nacional, provavelmente Cristiano Ronaldo não seria “capitão”. 

A escolha do líder da equipa em campo é uma das lições mais destacadas pelas recensões do livro “Liderança” (Actual Editora, 2016) que o antigo “Manager” do Manchester United escreveu e é considerado um tratado de gestão moderna: “para escolher um capitão, sempre me apeguei a quatro características básicas: vontade de liderar, fidelidade, respeito dos colegas e capacidade de adaptação”.

No século passado, os clubes não tinham orgânica para a gestão do plantel (recursos humanos), do calendário (objectivos), dos recursos (tecnologia), das prioridades (comunicação interna), de imagem (comunicação externa), da bola (jogo), das emoções e dos egos (disciplina), e até causava estranheza que em Inglaterra o trabalho dos “managers” excedesse a área puramente futebolística. Aliás, os “misters” que de lá vinham eram apenas os que abdicavam de tais responsabilidades e se limitavam às valências rudimentares de pioneiros a ensinar o básico do belo jogo.
Hoje, são raros os treinadores britânicos com capacidade para trabalhar fora das ilhas e são cada vez mais os “gestores” europeus (portugueses, alemães, holandeses, franceses, italianos) capacitados para assumir a máxima responsabilidade perante donos e accionistas ávidos de modernização.

Gerir é organizar e administrar para atingir um objectivo, num clube como numa empresa: se tudo for bem feito a montante, os 90 minutos de jogo hão-de reflecti-lo. Não admira que Federações, Ligas e Universidades tenham, nos últimos anos, começado a dedicar-se à formação académica de autênticos CEO do balneário.

Ferguson ensina em Harvard, precisamente, que existe uma diferença marcante entre a mera gestão e a liderança: “fazer as pessoas entenderem que o impossível é possível”. Uma coisa do futebol, que o mundo empresarial quer entender e adoptar.

Durante décadas a figura do “manager” dos clubes ingleses, com alargados poderes, era admirada mas considerada utópica noutras culturas desportivas. Agora, os ingleses perdem espaço enquanto aumentam as competências dos treinadores continentais, o que também nos ajuda a entender o rumo da vida de Cristiano Ronaldo em Old Trafford, após o afastamento do desajeitado Solskjaer, um “mister” à antiga: “Quando se perde a disciplina, dizemos adeus ao sucesso”. 

Jürgen Klopp, por exemplo, prefere encarar o futuro a partir da análise de erros e percalços do que arranjar desculpas para uma fase de insucesso crónico e o seu exemplo é sugerido para a gestão de empresas em momentos críticos. Mudar de treinador perante insucessos é encarado como uma precipitação nefasta para os negócios, a longo prazo.

Carlo Ancelotti é apontado em revistas de economia como o melhor exemplo para um CEO de eleição, pela sua tranquilidade, firmeza e discrição e, sobretudo, pela humildade de recolher a opinião dos jogadores mais experientes, antes de tomar decisões.

Uma das maiores empresas de recursos humanos e “head hunting”, a Michael Page, analisou os perfis dos principais seleccionadores presentes no último Mundial do Catar para “inspirar equipas, pessoas, e conduzir as organizações ao sucesso”, no mundo empresarial. Da flexibilidade de Fernando Santos à competência digital de Southgate, passando pela capacidade de adaptação de Luis Enrique ou pela determinação e coragem de Scaloni.

Não foi à toa que os donos do Manchester United recorreram a um Ralf Rangnick fora da caixa, a quem Cristiano Ronaldo não reconhecia competências futebolísticas, para recrutar o “gestor” do futuro, Ten Haag, no sentido de retomar o modelo interrompido pela reforma de Ferguson.

“Antigamente, os dirigentes festejavam um título no chuveiro com os jogadores; hoje, os Glazers apertam-te a mão e vão à vida deles”, tranquilos porque o clube está bem entregue.

 

Foto Harvard Gazette

A SEGUIR: H de Bitaites

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Antes da invenção do jornalismo de rabo sentado e pés de microfone pelos censores prévios das agências de comunicação, os repórteres tinham uma vida atribulada e aventureira à caça da informação, em que a sorte jogava um papel muito importante. Estar à hora e no sítio certos, com olhos e ouvidos bem abertos, fazia a diferença e influenciou a carreira de muitos jornalistas.

A morte do grande goleador Roberto Dinamite remeteu-me hoje para um desses momentos inesperados, vivido há 40 anos, em Sevilha, quando as comunicações jornalísticas eram feitas por telex e uma telefoto internacional demorava 17 minutos a “passar”.

Ao deslocar-me à sede do Comité Organizador do Mundial de Espanha para tratar da acreditação, deparei-me com os dirigentes da seleção do Brasil que procediam à substituição formal do goleador Careca, lesionado gravemente num treino, precisamente por Roberto Dinamite. 

Por sorte pura, transparência das fontes e liberdade de movimentos dos jornalistas, pude dar o que constituiu uma “caxa” mundial, ao confirmar a autorização da FIFA, sem precedentes até então, dois dias antes de começar a prova. Uma coincidência transformada em notícia, muito importante, que chegaria a toda a gente na manhã seguinte.

Deve parecer bizarro à geração das redes sociais e das “stories” instantâneas que as notícias se confirmassem nos locais e presencialmente, sem margem a especulações nem a filtros de comunicação: perguntas, respostas, factos com interesse público, notícia, um ciclo informal mas incontornável.

Por telex, escrito diretamente ao teclado, cheio de gralhas e em caixa alta para alguém, do lado de cá, “picar” e enviar para a “linha” dos clientes da agência e através destes aos leitores, era assim que circulava uma informação várias horas até chegar ao consumidor final. 

Na ANOP, fui ensinado a dar a informação correta o mais rapidamente possível e nunca perderei o frenesim de correr para o teclado sempre que tiver uma notícia confirmada. Nem que seja a que não gostei de partilhar hoje, da morte prematura de Roberto Dinamite, maior ídolo do clube mais português do Brasil.

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Se Descartes fosse treinador de futebol diria “ganho, logo, existo”, colidindo de frente com o diletante Jorge Valdano, “el Filósofo”, para quem o jogo é (apenas) uma “desculpa para sermos felizes”, explicação sumária para a sua curta carreira de técnico de alta competição.

Arte ou resultado, bola ou esforço, êxtase ou sobrevivência, genética ou treino, ADN ou “Filosofia de jogo”? 

É raro o dia que não ouvimos treinadores ou analistas avançarem decididos no campo da reflexão, inspirados em mestres que assumiram construir os seus modelos de jogo, de trabalho e de liderança a partir de ideias filosóficas - ou não fosse, por exemplo, o legado de Johan Cruyff sobre o futebol belo e de ataque plasmado num livro intitulado “Futebol, a minha Filosofia”, que orienta os seus discípulos.

O herdeiro Guardiola é incensado por declarar princípios básicos a que o marketing empresta uma aura de prolóquio metafísico e inovador: “somos bons porque mantemos a bola”. Mas a verdade é que José Maria Pedroto, há 40 anos, já declarava “se eu for dono da bola, serei dono do jogo”. Tal como Otto Glória, há 60, na metáfora da posse “não há omelete sem ovos”.

Novo fraseado, nem sempre coerente, para conjugar velhas ideias. E agora juntaram-lhe o ADN, que alguém já descreveu como a “filosofia da humanidade”, por condicionar a identidade e estrutura dos indivíduos e dos povos.

“O nosso ADN é ganhar”, proclamava Fernando Santos sobre a seleção nacional.

“Não vamos abrir mão do ADN da equipe, sempre muito compacta e agressiva quando não tem a bola” - explicava Jorge Jesus sobre o seu Flamengo.

“Eu e o Corinthians temos um pouco do mesmo ADN”, dizia Vitor Pereira antes de deixar o clube de São Paulo para seguir as pisadas do “mister” no Rio de Janeiro.

“Lendo, formamos o nosso ADN, o nosso código genético de escrita, o nosso estilo, conseguimos ter as nossas influências e a nossa identidade. No futebol é a mesma coisa”, comparava Freitas Lobo, influente comentador televisivo com livros publicados a respeito.

E assim não há jogo nem joguinho que não nos venham resumir peripécias, reviravoltas, falhanços, proezas e “remontadas”, às vezes por meras repetições de exercícios colectivos treinados exaustivamente, noutras por inexplicáveis acidentes ou golpes de sorte, com a boa da “filosofia de jogo”. E o ADN, a identidade, é o “passe-vite” da eloquência desportiva: 

“A nossa maior vitória é hoje sermos fiéis ao nosso ADN, nas diversas moléculas que o constituem”, declarou Frederico Varandas num discurso aos sócios do Sporting, após o ano vitorioso de 2021.

É, pois, um conflito insanável que alimenta “flash interviews” e discussões de “experts”. Se alguém obtém vitórias e títulos, mas não cativa pelos espectáculos que proporciona, colam-lhe o rótulo de “resultadista” colocando uma repugnante carga negativa em cima da filosofia de ganhar. Mas os que não os alcançam, por mais espectaculares que sejam as suas equipas, rapidamente são atropelados pela cobrança dos troféus não conquistados - porque ninguém identifica um ADN perdedor ou uma Filosofia de derrota.

«Ninguém gosta de jogar bem e perder, só os que falam de filosofia», sintetiza o pragmático José Mourinho que, no entanto, em 2012 afirmou que aspirava “a mudar a filosofia futebolística (porque) não existem treinadores com as mesmas ideias”.

A “Filosofia” no futebol moderno ocupa um lugar de honra, depois de ter sido elevada a disciplina dos cursos superiores de desporto e de se tornar público que os principais treinadores se desenvolveram em contacto profundo com a sabedoria do maior pensador português nesta área, Manuel Sérgio, a quem José Maria Pedroto designou de “profeta”, antecipando-lhe o reconhecimento mundial que chegaria décadas mais tarde.

“Dava-me livros de filosofia para ler e um dia disse-lhe que aquilo rebentava-me a cabeça”, revelou Jorge Jesus, também discípulo de Cruyff, numa homenagem ao sábio professor que influenciou o pensamento futebolístico português e brasileiro, a nível académico, com um princípio simples mas revolucionário.

“Quem sabe só de futebol, de futebol nada sabe”, escreveu Manuel Sérgio.

“O futebol é isto mesmo”, acrescentou Manuel José.

 

Foto Record

A SEGUIR: G de Gestão

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Quando vi Enzo Fernandez de cabelo platinado nos festejos do título mundial, assaltou-me a sensação de que vinha aí muita tinta para escorrer nas lavagens mediáticas. 

Convicto da relação direta entre o cabeleireiro e os palcos desportivos, entre o “look” e o comportamento das “pop stars” da bola, o instinto da experiência dizia-me que a “síndrome Rodman” tinha feito mais um refém. 

A sério.

Vivi o tempo dos “beatles” à George Best, dos ”hippies” à Cruyff, das bigodaças à Chalana, das carapinhas à Valderrama, dos “codinos” à Baggio, da elegância à Beckham, do “não sei que fenómeno me passou pela cabeça” à Ronaldo de 2002, dos moicanos à Neymar, das cristas à Vidal, enfim, sem esquecer das clássicas cabeças rapadas à Michael Jordan. As tendências da moda desfilam nos relvados como assinatura gráfica dos grandes estilistas.

Já o grande atleta Sansão dizia: “quem mexe com o meu cabelo mexe com a minha força”.

A cadeira do “coiffeur” é o divã do psicólogo desportivo dos nossos dias. Sou amigo de um profissional do ramo que acudia a emergências de pente e tesoura aos estágios da seleção e ainda hoje atende aos caprichos de clientes de frisados, tranças e degradês: só vos digo que a Netflix teria naquele salão de confidências matéria para várias temporadas.

Sobre a surpreendente mudança de humor de Enzo Fernandez, baptizado com o nome de um sempre impecável penteadinho, Enzo Francescoli, “el Príncipe”, gostava de saber a opinião de outro ídolo maior do River Plate, o único argentino bicampeão mundial, que levava esta questão capilar muito a sério, Daniel Passarella.

Colega de Mário Kempes, “el Pelotudo”, e capitão de Diego Maradona, o discípulo fiel dos barbudos de Cuba, Passarella trouxe o tema para a ordem do dia quando ao comando da seleção celeste decidiu deixar Caniggia e Redondo de fora do Mundial de França por se recusarem a aparar pontas e melenas, ao contrário do que aceitou, in-extremis, “el muñeco” Gallardo, também ameaçado de ser cortado da seleção de 1998 pela fátua capilar - e, curiosamente, o último mentor de Enzo Fernandez no grande clube de Buenos Aires.

Nos meus anos de andanças pela  NBA, li e ouvi debates, considerações, análises e sentenças sobre a tal “síndrome Rodman”, que terá sido o primeiro desportista a ousar aparecer em campo com o cabelo a berrar de roxo, amarelo ou violeta, às riscas ou às bolas, consoante lhe dava na cabeça.

Diziam que Dennis era maluco, aceitavam-lhe a excentricidade porque não havia defensor melhor na história do jogo, tiravam o máximo partido desportivo do seu temperamento de porco-espinho quando lhe passavam a mão pelo pêlo, mais tarde retratado na biografia “Bad as I wanna be”, e prepararam-se para o pior no dia em que apareceu de vestido e penteado de noiva para anunciar que se casara consigo próprio. É escusado dizer onde e como está hoje um dos melhores basquetebolistas de todos os tempos e amigo de Kim Jong-un, o ditador que impõe o corte à tigela a todos os norte-coreanos.

Talvez o desfoco da imagem de Enzo Fernandez aos olhos dos benfiquistas seja mera coincidência e aquilo não passe de uma promessa ao seu padroeiro San Martin, o “santo da espada”, Libertador dos argentinos: pinto o cabelo se ganhar, corto o bigode se perder, faço madeixas se for campeão. 

Quem tem vagar faz caracóis.

Mas algo me diz que ao Enzo Fernandez fizeram-lhe a cabeça, para grande decepção da massa associativa, que só queria vê-lo de cabelo pintado no desfile do Marquês, lá para o fim da primavera, quando os cortes dão mais força às raízes.

 

FOTO Getty Images

 

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Vivemos ontem, com a distância e o desconto que nos habituámos a dar à excentricidade e fantasia das histórias arabescas, a primeira das 1001 aventuras de Al-Ronaldo ibn Bortuqal, o Sultão do país das laranjas, no grande califado Al-Saud.
Tomemos a televisão e a internet como a Sheherazade da Arábia de hoje, onde as mulheres não são tão bem vistas como era a filha do vizir, para se encarregarem da difícil tarefa de manter viva a lenda do antigo grande jogador durante os próximos três anos.
Uma história por noite era o que Sheherazade contava ao seu sultão para evitar que ele a matasse e substituísse por uma virgem. Uma história por dia para adiar o esquecimento é o que os Instagrames vão ter de inventar para o mundo saber que o grande jogador de futebol continua activo e feliz, como Sinbad o marinheiro, Ali-baba o príncipe dos ladrões ou Mahmud o sultão das duas vidas.
Mas não vai ser fácil emocionarmo-nos com o seu “estou aqui” quando marcar golos frente aos Al-Fateh e aos Al-Shabab do deserto saudita.
A velocidade da erosão da carreira do nababo futebolista lembra as tempestades de areia que mudam a paisagem das dunas de um dia para o outro. Os oásis da bola que sempre estavam por perto, para um refresco da imagem e do prestígio, são agora miragens longínquas e intangíveis.
O oásis Jorge Mendes já se diluiu num imaginário de desavença e traição entre sheiks. O nosso herói ficou só e mal aconselhado.
O oued Seleção Nacional está seco e apenas oferece um caminho para lado nenhum, que a sabedoria aconselha a evitar. O sucessor da FEMACOSA estará agora de mãos livres para deixar de convocar um jogador exilado na terceira divisão do futebol mundial.
O palmeiral da Champions deixou de dar sombra e prazer aos ávidos de golos e troféus. Acabou a saga do melhor de sempre na mais difícil competição.
A caravana de Messi está cada vez mais distante na travessia do deserto dos maiores de sempre. Vai ser penoso comparar as pilecas do circo saudita aos corcéis dos circuitos europeus.
Resta apenas a lengalenga de contar, recontar, conferir e reconferir, os milhões e bilhões na grande lavandaria de “sportswash”, o que deve tornar-se fastidioso e cada vez menos interessante à medida que as noites passarem. Ou ir acompanhando a vidinha da favorita Georgina na terra dos haréns, qual princesa Zuleica dos tempos modernos.

FOTO AFP

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No seu afã de originalidade, um então jovem jornalista desportivo apresentou uma vez uma fórmula táctica inovadora, incluindo um zero, para descrever o “espaço vazio” estratégico de uma das equipas, do tipo 4x3x(0)x3, observação que não foi muito apreciada pela chefia de redação conservadora, mas que pode ter sido, com avanço de mais de vinte anos, a primeira descrição do jogo de “entrelinhas” que enche a boca dos comentadores e analistas contemporâneos.
“Linha" é uma palavra matriz do futebol. O onze que vai jogar, a “line up”. A “linha defensiva” desde que passou a ter quatro jogadores. A “linha ofensiva”, que inicialmente era de seis. A “linha média”. As “quatro linhas” do campo. A “linha lateral”. A “linha de fundo”. A sagrada “linha de golo”. Quase não sobra espaço naquele hectare e, mesmo assim, ainda querem que o jogo se faça “entre linhas”?
Procurei ajuda e encontrei a descrição de um treinador com idade para ser filho daquele agora veterano (e grande) jornalista, no zerozero.com: “A palavra entrelinhas não passa despercebida a quem acompanha o fenómeno futebolístico. Tornou-se viral na tendência do futebol mais atual, vislumbrando o espaço de progressão, uma passagem para a aceleração, uma mudança de ritmo, a expressão do “jogar”.
Dou por mim a pensar, com comiseração, na vida destes futuros treinadores, puxando pela cabeça para adequar conceitos mirabolantes e rebuscados, nas suas dissertações académicas, a um jogo tão básico como o futebol.
Progressão, aceleração, ritmo, jogo - qual destas partes é nova no futebol moderno?
Leandro Monteiro, a quem agradeço a mais clara definição do fenómeno, diz que o passe entre linhas, “funciona como catalisador para queimar etapas”, encontrar “colegas soltos” e ir “queimando as linhas de pressão do adversário”. Ou seja, “com um passe desse efeito, podemos ultrapassar uma linha média inteira. Após a receção e se esta coadunar com a progressão, estaremos num espaço privilegiado para dar expressão ao nosso jogar.”
E exemplifica que o jogo entre linhas tem por objectivo “criar instabilidade” na defesa adversária, visando “desmontar” organizações defensivas. Que receber a bola dentro do “bloco” adversário torna-se desconcertante para quem defende. Que receber a bola entre os médios e os defesas “queima” os adversários de primeira linha. E, aos microfones, falam do “falso 9”, do “nove e meio”, do “fim do 10 clássico” - e mais não sei quê!
Ou seja, este conceito das entrelinhas é um relambório do ancestral “kick and rush”, toca e foge, passa e repassa, naqueles palmos que os clássicos da televisão a preto e branco descreviam como “terra de ninguém”, o popular “corre e desmarca-te” que os treinadores de antanho gritavam aos seus extremos. Quando ainda não era futebolisticamente incorreto dizer “extremos”.
A desmarcação era a chave para a progressão, acelerava o jogo, mudava o ritmo e fazia jogar. Não me digam que “jogar entre linhas” é, tão só, fugir à marcação, porque acabei de queimar duas ou três linhas de neurónios a tentar perceber se me escapava alguma coisa.
Cheguei mesmo a imaginar um 4x0x3x0x3 como complemento esquemático ideal para o “fogo à peça” na palestra de um Fernando Cabrita dos nossos dias - o futebol desalinhado de sempre, mas agora com grau académico.

ILUSTRAÇÃO Futebol Interativo

A SEGUIR: F - Filosofia

03 Jan, 2023

Bebés do ano

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Estão a chegar os Magos da bola com seus tesouros dourados para colocar aos pés das manjedouras onde asnos e ruminantes se afadigam a aquecer os egos de Cris e Enzo, os bebés do ano.

Guiados pela estrela que brilha quando nascem os eleitos, oferecem ouro, incenso e mirra.

O ouro que distingue a estirpe da realeza, a casta da superioridade.

O incenso que inebria os sentidos, afasta as melgas e produz a cortina de fumo que tolhe a visão do futuro.

A mirra que atenua as dores e embalsama as carcaças, como um elixir da eterna juventude.

Mas os jogadores não são deuses, nem são eternos. 

Porque o futebol é o momento, rei morto, rei posto, ídolo vem, ídolo vai, a estrelinha brilhará em breve sobre outros estábulos.

 

FOTO Al-Nassr

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Através do francês “pivot” (ponta ou terminal de um eixo sobre o qual gira uma placa ou carga), vários desportos, como o Andebol, o Basquetebol ou o Futsal, definiram uma posição essencial ao jogo, destacando um elemento em torno do qual se movimenta o ataque da equipa.
A estrutura dos outros jogadores roda em torno daquela base, como uma bússola gira em volta do seu pino. O “Larrouse” define-o como a base ou suporte, em torno da qual tudo se organiza, como o “pivot” de uma conspiração.
Por isso, quando alguém a usou pela primeira vez no futebol falado, pelo começo dos anos 90, foi também em associação à posição mais solitária do ataque, o defunto avançado-centro, que batalhava isolado no meio dos centrais, tentando oferecer-se como ponto de referência. Mesmo assim, tal nomenclatura nunca vingou, porque a sua tarefa primordial é a de finalizar e não a de fazer girar a bola à frente da baliza.
Talvez tivessem ficado com pena do desperdício de uma palavra tão jogável, tão desportiva, pois, poucos anos passados, perto do final do século, irrompeu com grande brado numa nova função e em dose dupla, mas com uma roupagem defensiva, o trabalho de recuperação da bola e de iniciar a preparação do ataque.
Todavia, este “duplo pivô” é das designações mais arrevesadas que os homens do futebol adoptaram, um autêntico monstro de duas cabeças, se nos detivermos no significado etimológico, no princípio físico que define um “eixo” quando se trata de unir dois pontos e na própria dinâmica do futebol.
E, em parte, por uma errada justa-posição das palavras. Talvez fizesse mais sentido e devesse chamar-se “pivô duplo”, como os travões das bicicletas ou como os casais que apresentam os telejornais modernaços. Um só pivô, “comme il faut”, mas com duas extremidades funcionais, como a forquilha das fisgas da minha infância.
O problema é que a ideia de um “pivô-duplo” conflitua com o princípio táctico que subjaz ao “duplo pivô” do futebol. Ou seja um pivô-duplo seriam dois jogadores a realizar a mesma tarefa, como a “ponte” das dentaduras postiças, aquela que no futebol arcaico se designava toscamente por “trinco” italiano ou “volante” brasileiro - sempre no singular, como o ferrolho do portão ou o guiador do automóvel - e isso atrapalharia a dinâmica do conjunto.
Ora o “duplo pivô”, socorrendo-me de um dos seus prolíficos difusores, o comentador Freitas Lobo (planetadofutebol.com), representa dois jogadores a desempenharem funções distintas, um “mais preso” e o outro “a sair mais para o jogo”.
Também o blogger e treinador Pedro Bouças (lateral-esquerdo.com), expoente da “geração basculação”, identificou o “médio centro direito e o médio centro esquerdo” como gémeos dizigóticos desta irmandade, o que me provoca nova inquietação: poderiam, por analogia, os dois defesas centrais, um mais à direita, outro mais à esquerda, também serem identificados como ”duplo pivô”, igualmente um mais livre “a jogar” e o outro “na marcação”?
E, por absurdo, nas tácticas de três centrais ou de três médios em linha, poderíamos aludir a um “triplo pivô”?
Realmente, dois jogadores a fazer o mesmo não teria cabimento numa equipa. Mas se cada um dos “pivôs” da dupla desempenhar funções diversas e ocupar espaços assimétricos, um lateral e estático, o outro longitudinal e dinâmico, como Pedro Bouças teoriza, não estaremos antes a falar de um sistema, de um eixo, de uma “linha” daquelas que formam as “entrelinhas”?
E, enfim, não lhe assentaria melhor a singela designação de “dupla”, dupla de médios, como a dupla dos defesas centrais? Caramba, há 2500 anos, já Pitágoras definia “um” como um ponto e “dois” como uma reta.
Pensem nisto.

Foto Record

A SEGUIR: E - Entrelinhas

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