Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

Captura de ecrã 2022-12-06, às 08.34.25.png

CATARSES 2️⃣1️⃣

Sofres irreparável perda familiar, és processado por agressão a uma criança, cais fora da Champions League porque os grandes clubes desconfiam do teu compromisso, és multado por insubordinação no clube, suspenso por falhas profissionais graves e finalmente despedido por quebra pública de confiança da entidade e da hierarquia. Mudas para a seleção e enfrentas a desconfiança de falta de solidariedade com os colegas e acabas a invectivar gratuitamente o seleccionador nacional.

Se o patrão da FEMACOSA, com o seu proverbial estilo de Rainha de Inglaterra, tivesse de sintetizar este seu ano, até ao dia de hoje, como observador privilegiado de todos os problemas protagonizados pelo seu príncipe Cristiano Ronaldo, servir-lhe-ia um histórico discurso de Isabel II, há precisamente 30 anos: 

“2022 não é um ano que possa ser lembrado com grande prazer. Descambou num autêntico “Annus Horribilis”.

A sucessão de tragédias, escândalos familiares, traições amorosas, divórcios, desastres e castelos a arder que atormentaram a Família Real britânica em 1992, foi potenciada pela fama da Princesa Diana, o maior fenómeno de popularidade mediática à escala mundial, recorde que o jogador português luta denodadamente para superar com a ajuda das redes digitais, sem acautelar os danos colaterais de repulsa por desvios de comportamento, indesculpáveis à luz do socialmente correcto.

Graças a um assessor privado muito competente, a Rainha citava uma expressão usada um século antes pela Igreja Anglicana para descrever o ano de 1870, quando foi declarada a “infalibilidade do dogma papal” - o que, em linguagem laica, significava que quando o Papa fala ninguém pode duvidar, mesmo que ele peque, erre ou minta, notória e descaradamente.

Ela assumiu com coragem e frontalidade o que os assessores da FPF tentaram esconder, de forma canhestra, pondo em causa a autoridade e a seriedade do seu treinador em regime de prestação de serviços, por razões insondáveis e perigosíssimas para a coesão da seleção.

Nesta medida, também deve ser “horribilis” a sensação de Cristiano Ronaldo mais uma vez desautorizado e despojado da infalibilidade futebolística e pessoal que lhe fora reconhecida durante anos a fio, alcandorando-o a um estatuto ‘ex-cathedra’ que, por mais notórios que sejam os seus erros, ninguém tem tido coragem de discutir ou pôr em causa. Sentindo-se e vivendo como um Papa da bola, inquestionável por escritura e tradição. 

Até ontem, pois todas as histórias de super-heróis, na essência da sua humildade e dádiva às causas superiores, merecem um final feliz.

O jogo de hoje entre Portugal e a Suíça, com uma atitude majestática de Cristiano, ainda pode desencadear a purga que transforme o horrendo 2022, in-extremis, em memorável “Annus Mirabilis”, como os tempos miraculosos da “Era da Razão” que iluminaram a mente humana e libertaram os espíritos das trevas da Idade Média.

Dir-se-á que, à razão de um próximo contrato de 500 milhões de euros, a era de Cristiano Ronaldo seguirá infalível e certa, sempre cheia de razão, como um daqueles relógios da sua coleção de luxo, CR7 Epic,  com 26 diamantes, o mesmo número das pedras preciosas da seleção, lançada este ano por uma marca suíça. 

Mas, no final de um reinado tão duradoiro como o da monarca recentemente falecida, Cristiano Ronaldo deve ter aprendido que o amor dos súbditos se conquista pela acção corajosa, liderante e aglutinadora, porque, como dizem os ricos e famosos, “o dinheiro não é tudo”. 

A começar pelo discurso de compromisso e responsabilidade que pode proclamar hoje no balneário, projectando a voz para todos ouvirem bem e citando a maior “influencer” inglesa :

“Declaro diante de todos vocês que todo o meu jogo com a Suíça, seja longo como eu gosto ou curto por decisão do treinador, será dedicado ao vosso serviço e ao serviço do nosso grande país”. 

ILUSTRAÇÃO FIFA 19

ronaldo-premiere-portrait_tcm25-405361.jpg

CATARSES 2️⃣0️⃣

Se pensarmos em Eusébio como um disco (“record”, no inglês) e em Cristiano Ronaldo como um cd, chegamos à metáfora de Neil Young sobre o choque entre gerações: “Steve Jobs foi o pioneiro da música digital, mas quando chegava a casa punha um disco de vinil”.

Kylian Mbappé, o fenómeno a quem ouvi ontem chamar de novo “pantera negra”, misto de Eusébio e Pelé, a tornar-se no melhor jogador da era digital, quebrou frente à Polónia o “último” recorde mundial do maior jogador português do século do vinil: por 198 dias, recebeu do moçambicano o testemunho de jogador mais jovem a marcar 9 golos num campeonato da FIFA, na interminável estafeta de procurar fazer melhor do que o percurso anterior.
Pronto, não há mais recordes de Eusébio para bater, concentremo-nos no trabalho de ganhar à Suíça, nem que seja com golos de André Silva ou de Seferovic na própria baliza.
“Terça-feira nem pensar, tenho jogo”, diria o próprio Eusébio, se estivesse entre nós, com 80 anos, e lhe quiséssemos agendar uma entrevista para debater este momentoso assunto, que pudesse desviar, por minutos que fosse, a atenção focada no transcendental confronto de Doha. Além de logo ter matado a polémica, desejando que Cristiano Ronaldo marcasse os golos que faltam para chegar ao título que ele e todos os portugueses acham merecer desde 1966.
Ao futebol, desporto canibal que seca o mediatismo a todas as modalidades desportivas, só faltava esta febre dos recordes que acomete alguns solistas excêntricos que procuram distanciar-se dos artistas comuns que lhes carregam o piano em cada espetáculo.
O “Guiness Book of Records” descobriu o filão há alguns anos e desenvolveu uma categoria autónoma sobre futebol, em parte ancorada na figura de Cristiano Ronaldo, um papa-recordes insaciável, que já forrou uma parede com os diplomas encaixilhados das suas proezas e que tem suficiente tracção mediática, à escala mundial, para concentrar atenções nesta marginalidade, abrindo-lhe mais uma frente de negócio.
Do máximo de golos numa época de Champions à personalidade com mais seguidores nas redes sociais, passando pelos ‘hat tricks’ na Liga espanhola e acabando nos golos em partidas de seleções e em Europeus, Cristiano Ronaldo já detém o recorde dos recordes reconhecidos pelo “Guiness”, que o condecorou até pelo “rating” mais alto (99%) no jogo eletrónico FIFA 18.
Ele é o “serial killer” dos recordes do futebol.
A par do incremento das estatísticas minuciosas, da cultura dos jogos electrónicos, do apetite voraz por novos “conteúdos” de media social e da diversidade e pressão dos patrocinadores, desenvolveu-se esta indústria efémera do recorde, por pouco e por nada, ridícula e vazia de romantismo como um iPod.
Os americanos chamam-lhe “hype”, abreviatura de “hyperbole”: expressão exagerada de forma dramática para potenciar campanhas publicitárias ou ações de marketing impactantes. É isto a pirexia do recorde que tem arrastado Cristiano Ronaldo para situações ridículas a cada jogo que passa, em contraste com o registo imorredouro do desportivismo romanesco que Eusébio deu ao mundo em 1966.
Recorde, o anglicismo que deriva de “record” (registo), evoluiu na linguagem universal para “façanha desportiva registada oficialmente, que consiste na ultrapassagem de tudo quanto se fez no género”, um conceito factual sem margem para discussões que, todavia, não apaga nem diminui o valor dos pioneiros. Émile Berliner também foi o inventor dos “records” de 78 rotações, mas é a Thomas Edison que devemos o fonógrafo.
Ora, o sensacional registo de 9 golos de Eusébio em apenas um Mundial (1966) é um recorde nacional que nunca será batido. Tal como acontece a nível mundial com os 13 golos de Juste Fontaine em 1958 - apesar de Miroslav Klose e Ronaldo “Fenómeno”, o outro Ronaldo simples e bonacheirão brasileiro, terem superado esse número em vários campeonatos posteriores.
Meti-me nesta embrulhada de estabelecer o recorde do artigo com mais “recorde” escritos, porque uma das palavras da minha vida é “Record”, nome de jornal de futebol criado por gente do Atletismo, a modalidade dos recordistas eternos, como Jesse Owens, Carl Lewis ou Serguey Bubka, cujo lema foi sempre procurar ser melhor do que a concorrência.
Afinal, também detenho o recorde do “Record”, com seis entradas (e saídas), ao longo de 35 anos, de aprendiz a diretor. Acho que nem o Cristiano Ronaldo consegue bater isso.

FOTO guinnessworldrecords.com

04 Dez, 2022

Viva o mata-mata

IMG_1204.jpg

CATARSES 1️⃣9️⃣

E, ao décimo quarto dia, o Mundial começou.
É o tempo do “pátria o muerte” guevarista porque o futebol moderno, segundo um dos seus “inventores”, Bill Shankly, é muito mais importante do que uma questão de vida ou de morte.
Há quase 20 anos que proclamamos “mata-mata, como dizia o Scolari” para identificar a carga dramática das etapas decisivas dos campeonatos a que, antes do Euro-2004, chamávamos formal e desenxabidamente de “segunda fase” ou, num pico de emoção, de “fase a eliminar” como tradução do original inglês “knockout phase”, mais tarde “playoffs”. De eliminar para matar, é desta diferença semântica que se ergue a transcendência dos próximos jogos do Mundial.
Com fortes indícios de que este pode ser o “Mundial de Messi”, agora que o argentino entrou no segundo milénio de jogos com uma vitória e superando sem esgares nem ruído um “recorde” de Maradona, a perspectiva de um mata-mata entre ele e Cristiano Ronaldo na final, já faz salivar de ansiedade o mundo dos adeptos apaixonados e os escritórios dos donos do negócio.
A tradição de Portugal em mata-matas mundiais é pobre, com dois campeonatos positivos em 1966 e 2006, mas também duas eliminações à primeira, em 2010 e 2018. E Cristiano apresenta um défice de duas vitórias, uma delas nos penaltis, e três derrotas, enquanto Messi tem um saldo positivo de 5-4.
Para lá chegar, contudo, é preciso superar a Suíça, o país com maior esperança média de vida de todos os participantes no Catar, mas que nunca ganhou um jogo de “mata-mata” em Mundiais, somando 5 derrotas na primeira eliminatória dos “playoffs” como a de terça-feira em Lusail. E a Espanha. E a França. Ou a Inglaterra.
E, que o argentino elimine o Brasil, pátria do mata-mata e do seu guru, Luis Felipe Scolari, vencedor do Mundial de 2002, onde as pessoas, tradicionalmente, menosprezam a falta de emoção das competições de “pontos corridos”.
Quanto sofrimento nos espera!
O modelo de mata-mata, como o conhecemos hoje, só foi adoptado definitivamente no Mundial do México de 1986, depois de experiências falhadas com a segunda fase em “poule” nos campeonatos de Argentina-1978 e Espanha-1982. Uma espécie de ovo de Colombo desportivo e comercial que demorou décadas a pôr de pé pelos dirigentes da FIFA, tradicionalmente lerdos a tomar decisões óbvias.
Aos que consideram que o futebol de hoje é muito mais difícil do que o do século passado, dedico a memória que serve de ilustração a este artigo, sobre os quartos-de-final do Mundial de 1934, disputados em Florença, sob a pressão (e repressão) de Mussolini, entre a Itália e a Espanha. Depois de empatarem no dia 31 de Maio, apresentaram-se de novo a jogo de desempate a 1 de Junho, dois encontros em 24 horas, num tempo em que não havia substituições, a inspirar esse título de “Viva La Muerte”, sobre uma foto do histórico Giuseppe Meazza, desmaiado pelo esforço, que fui encontrar na reprodução do L’Auto, o jornal desportivo que deu origem ao grande L’Équipe após a Segunda Guerra Mundial.
É desta tradição agonística que descende o ADN desta competição.
Este modelo com jogos extra e prolongamentos de desempate até alguém cair para o lado era um pesadelo para as equipas e para os países organizadores, mas só foi abandonado em definitivo depois da invenção da decisão por penaltis, em 1976. O “mata-mata” impôs-se, então, como fórmula simples, mas certeira, que arruma o assunto com a mesma eficácia letal com que o “Chelus Fimbriata", o cágado de pescoço de cobra que os índios Kanamari baptizaram precisamente de “mata-mata”, devora de uma penada e sem mastigar as suas pequenas presas nas bacias lamacentas da Amazónia.
O significado deste nome é o “quem perde, paga”, sem remissão, da cultura dos velhos salões de bilhares das cidades portuguesas ou do jogo do “abafa” em que a bazuca conquista os berlindes pequenos pelo tiro certeiro. No Brasil original, foram estes jogos de “sinuca” e de “bolinha de gude”, também chamados de “mata-mata”, sem indulgência para os perdedores, à maneira do cágado da Amazónia, que inspiraram a sua adopção pelo léxico do futebol.
E, “lá está”, como diria o Marco Caneira, o mata-mata futebolístico mais importante das nossas vidas começou com a liquidação de duas pequenas presas fáceis, Estados Unidos e Austrália, abocanhados por dois predadores, a Holanda e a Argentina - grandes gladiadores dos Coliseus do mata-mata internacional, de onde só se sai aos ombros da glória ou na padiola dos derrotados

thumbs.web.sapo.io-10.jpeg

CATARSES 1️⃣8️⃣

Há um jogador veterano e muito antigo na seleção de Portugal, com uma carreira de sucesso iniciada no Sporting e depois prosseguida em Inglaterra e Itália, a quem o reconhecimento popular valeu ser perpetuado na terra natal com uma estátua vistosa, homenagem exemplar em vida, mas raríssima, quase única, a futebolistas que teimam em adiar a merecida reforma por limite de idade. 

Leva mais de dez anos na seleção, ultrapassou a centena de internacionalizações, jogou todas as grandes competições, Europeus, Ligas das Nações e Mundiais, sempre disponível e influente, mas muitos já não lhe reconhecem capacidade para tirar o lugar a um jovem emergente.

Num plantel de 26 jogadores para uma competição de sete partidas em 28 dias, a oportunidade de jogar é tão escassa que acaba por dividir a equipa em titulares com ritmo, intensidade e motivação e em suplentes a quem as semanas sem jogo vão quebrando a forma e o espírito, reduzindo-lhes a competitividade para uma prova tão exigente. 

Dos veteranos, inclusive, não se pode esperar que garantam o rendimento dos mais jovens, depois de terem perdido velocidade de execução e capacidade de regeneração física, com a autoridade do treinador desafiada a impor-lhes limites de utilização de forma a preservá-los para os desafios colectivos mais importantes que se seguem, sem atender aos caprichos de velha primadona, que podem constituir um traço de carácter dos jogadores com estátua.

Foi José Maria Pedroto que fez evoluir o nome e o perfil dos jogadores que se sentam no banco, transformando-os de “suplentes” em “reforços” - equiparando o status de cada um de forma mais adequada à imperceptível mas enorme transformação do jogo pela possibilidade atual de fazer o dobro das substituições e refrescar meia equipa.

Na última jornada da fase de grupos do Catar-2022, em que pela primeira vez nenhuma selecção conseguiu o pleno de vitórias, essas diferenças foram gritantes, com todas as qualificadas antecipadamente, França, Brasil e Portugal, derrotadas por terem decidido dar descanso aos titulares, revelando um fosso entre o nível dos que participaram nos primeiros jogos e o dos supostos “reforços”.

No caso de Portugal, à excepção de Diogo Dalot, nenhum dos substitutos chamados à liça justificou a entrada na equipa no jogo de terça-feira frente à Suíça, por falta de rotinas, de aplicação e de identidade, na folga dos jogadores-âncora. Deu até para perceber que a ementa anunciada na véspera por Pepe e pelo “chef” da FEMACOSA era, afinal, uma salada mal amanhada e pior temperada, nem carne, nem peixe.

Esta derrota que trouxe “muita tranquilidade” à vida de Paulo Bento, além de gerar uma inquietante dúvida metódica para os oitavos de final, é um banho de humildade para os jogadores envolvidos e para quem, por deriva da contaminação clubística, os apoia na contestação a um seleccionador que se foi colocando, ao longo de anos, em posição impopular, cada vez mais impopular, seja pelas escolhas, seja pelas estratégias, seja pelos esquemas financeiros que lhe permitem ser um prestador de serviços em regime de “outsourcing”, seja, acima de tudo, por não esconder preferências. Forte com os humildes e flagrantemente permissivo para os poderosos.

Imagino como seria tema para longas, profundas e tóxicas discussões se tivéssemos acesso a grandes planos da mímica que o tal jogador com estatuto e com estátua terá encenado, quando soube que ia ser substituído por um jovem com mais futuro:

“Estavas com pressa para me tirar da equipa ou sou mesmo eu que já não rendo o suficiente?”

Imagino o esforço psicológico que esse veterano protagonista de tantas batalhas gloriosas terá realizado para engolir o desaforo e sentar-se humildemente no banco dos suplentes, sem protestar nem criar mau ambiente e ainda colocar-se na primeira linha de apoio aos colegas eleitos, mantendo-se fresco e alerta para ajudar a equipa, se necessário. 

Se o tal jogador com estátua se chamasse Rui Patrício e tivesse sido perpetuado em bronze por um momento único da sua carreira, uma enorme defesa na final do Europeu de 2016 tão importante como o golo de Éder, e não por uma qualquer pose de modelo, teria moral para gritar, claro e em bom som, para o seleccionador ouvir de forma inequívoca, sem necessidade de tradutor gestual: 

“Leia nos meus lábios: temos pressa de ver ordem na casa”.

 

FOTO SAPO Desporto/JUNG Yeon-je (AFP)

thumbs.web.sapo.io-9.jpeg

CATARSES 1️⃣7️⃣

O senhor Anael Ferreira podia ter escolhido para o filho o seu nome hebraico de arcanjo, vulgar de Lineu, o sueco que inventou o método de baptizar os grupos biológicos, mas não. Quis ir ainda um pouco mais longe para distinguir o primogénito, nascido na recôndita Maceió, dos confins do Nordeste brasileiro, povoado de gerações de luso-descendentes únicos e diferenciados.

O senhor Anael obteve autorização de Dona Rosilene para chamarem o menino de Kepler Laveran, no longínquo ano de 1983, quando ainda não havia internet e as enciclopédias eram privilégio de curiosos ávidos de conhecimento. Um nome único no mundo, acredito, porque juntar o de um astrónomo e matemático alemão do século XVII ao de um francês Prémio Nobel da Medicina de 1907, é tão rebuscado e original que muito cedo a família se terá cansado de dar explicações a familiares, vizinhos e amigos. 

E foi assim que o senhor Anael, arrependido, optou por resolver a intricada equação nominal com um singelo Pepe, nada mais nada menos que a alcunha de José Macia, ídolo futebolístico da sua infância, parceiro dileto de Pelé no Santos e na seleção do Brasil, campeão do Mundo,  em 1958 e 1962, seguramente menos importante para a humanidade do que a definição matemática do movimento e da velocidade orbital dos planetas ou do que o estudo e tratamento das doenças causadas por protozoários, como a terrível malária. Mas muito mais simples de explicar e entender.

Este assunto do nome de Pepe será tão árido e desinteressante que não encontrei evidência de que algum jornalista, ao longo da sua preenchida carreira profissional de 21 anos, lhe tenha pedido explicação, nem que fosse um clássico “como se sentiu?” quando tomou consciência de que se chamava Kleper Laveran. Endosso ao SAPO Desporto, criação de um “Pepe” do jornalismo chamado José Rocha Vieira, a única referência a este assunto, em 2012, e agradeço.

Pepe de Portugal, de origens alagoanas, luso-descendente da enésima geração, como Pepe do Brasil, um José de origens galegas. Talvez os únicos Pepes a serem campeões do Mundo e que só coincidem na alcunha, pois não podiam ser mais diferenciados em personalidade, perfil atlético, estilo de jogo ou currículo - que quem lê nomes, não vê temperamentos.

O “canhão da Vila”, jogador de um emblema só, foi um avançado “monstruoso”, canhoto e de estatura meã, tecnicista, segundo goleador da história do Santos. O portista é um defesa central, atlético e duro, rei do choque e do chutão de alívio, com marca indelével em vários clubes, a quem ultimamente também muitos chamam de “monstro”. O mesmo qualificativo, mas com significados bem diversos.

Disputar mais de 700 jogos, pelo Santos e pelo Brasil, sem uma única expulsão é uma monstruosidade. Mas um dos jogadores do século XXI mais vezes expulso, 11 delas por conduta violenta, incluindo a estigmatizante agressão bárbara a um adversário caído à sua frente, há mais de 15 anos, não o será menos.

Apesar disso, se Pepe tivesse nascido em Alguidares de Cima, não fosse uma figura do FC Porto e não protagonizasse tantas cenas kung-fu com bola, estou convencido de que seria um ídolo da maioria dos portugueses, acima de figuras gradas e respeitadas que o precederam, com idêntico perfil, excepto o berço - e, vá lá, o nome próprio -, como Jorge Costa, Fernando Couto ou Bruno Alves.

O que faz em campo já teria rendido a Kepler Laveran parangonas tão laudatórias como as “Leis de Pepe”, associando os seus movimentos distintos dentro das quatro linhas dos relvados às três Leis do seu padrinho setecentista sobre o posicionamento (dos planetas) no espaço e em função do tempo. Ou o “Tratamento de Pepe” em referência ao rigor e eficácia das investigações de Laveran sobre o paludismo.

39 anos, 28 títulos importantes, 130 jogos pela seleção do país adotivo e inúmeras provas de superação e dedicação à profissão e às camisolas não bastam para alcançar a unanimidade, mas o seu lugar no quadro de honra da FPF está mais do que garantido.

Para mim, apesar do cadastro, ele é o verdadeiro Pepe Legal, completamente oposto do velho herói dos desenhos animados, xerife do Oeste com cara de cavalo e desastrado com a pistola, cujas caricatas desventuras, distrações e lapsos de inteligência só se salvavam pela lealdade do parceiro Babalu. O xerife da seleção também tem sido, ao longo da carreira, um parceiro leal, despachado e inteligente, estando agora pronto para apadrinhar a estreia no Mundial de um "babalu" de nome bem vulgar, António Silva, ainda não outro Pepe mas uma pepita por lapidar e que não era nascido quando ele começou ao Marítimo.

Mas para muitos detractores empedernidos, o português mais velho a jogar num campeonato do Mundo permanece no limbo da rejeição, pela origem e pela personalidade controversa, simpático à paisana mas detestável quando no exercício do dever, jovial no trato fora das quatro linhas, mas reconhecido como um dos defesas mais intratáveis do futebol mundial - alguém que preferimos ter ao nosso lado do que como adversário, embora lhe recusemos a alforria do estigma da maledicência.

Português quando ganhamos, brasileiro quando perdemos.

Dele disse esta semana o seleccionador sócio-gerente da FEMACOSA que “é um monstro”, pronto para disputar todas as partidas aos quase 40 anos de idade e tornar-se o segundo Pepe a inscrever o nome entre os raros campeões da história dos Mundiais, sem cuidar de salvaguardar que essa categoria, no futebol e na selecção, só se atribui a jogadores de dimensão universal, acima de qualquer clube e com nome diferenciado e único, como Eusébio ou Coluna, os “monstros sagrados”. 

Sim, este Pepe imperial, segundo do Brasil, primeiro de Portugal, também é um “monstro”, um bom monstro.

 

FOTO SAPO/EPA/Abir Sultan

Pág. 3/3