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J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

J Q M

Fui jornalista, estive em todo o tipo de competições desportivas ao longo de mais de 30 anos e realizei o sonho de participar nos Jogos Olímpicos. Agora, continuo a observar o Desporto e conto histórias.

14 Dez, 2022

Mãe-África

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CATARSES 3️⃣1️⃣ 

Nunca a expressão “Mãe-África” fez tanto sentido como neste dia da meia-final do Mundial entre França e Marrocos, a primeira com uma seleção africana. Ou melhor: com duas.

Uma recheada de jogadores filhos ou netos de africanos, contra outra com mais de metade de internacionais nascidos noutros continentes - todos orgulhosos e vinculados às respectivas raízes.

Muitos povos em luta social e política contra o estigma do colonialismo irmanaram-se fervorosamente nos últimos dias aos 40 milhões de marroquinos no sonho de celebrar a simbologia de um triunfo à escala mundial sobre os pesadelos da opressão e da escravidão que esteve na sua génese. No Brasil, chamaram-lhe “Brarrocos”.

Marrocos apresentou-se com africanos naturais do Canadá, de Espanha, de França, dos Países Baixos, da Bélgica e de Itália. 

França com europeus oriundos da Argélia, Congo, Benim, Camarões, Guiné-Bissau, Angola, Mauritânia, Costa do Marfim, Mali e do próprio Marrocos.

Todos nascidos dessa grande, terna, forte e incansável mulher africana, lutadora, trabalhadora e sustentáculo das famílias, como as homenageadas no relvado de Doha pelo “espanhol” Hakimi, filho de Fatima, e pelo “francês” Boufal, filho de Zoubida, após a vitória sobre Portugal.

“Viemos ganhar por África, pelos países que estão em desenvolvimento” - assumiu o seleccionador marroquino, Walid Regragui, ele próprio nascido perto de Paris em 1975, apenas um ano depois de as seleções africanas terem sido admitidas pela primeira vez no torneio da FIFA. 

Após se ter coroado novo Califa do Al-Andalus, com as suas vitórias sobre Espanha e Portugal, Regragui desvendou a mudança psicológica que pode vir a mudar a mentalidade das equipas de África para sempre, uma atitude que reflete, precisamente, a rejeição dos seus 14 jogadores nascidos fora de Marrocos ao rótulo da “ingenuidade” do futebolista africano “puro”:

“Há uma ideia baseada na nostalgia preconceituosa de que os africanos precisam ser ingénuos, atacar com tudo, ou então não prestam”. 

O “regraguismo”, que promete alastrar a todo o continente como um grande movimento motivador de referência, começando por reinvindicar mais do que os cinco lugares atuais nos finalistas dos Mundiais, sofre todavia de uma patologia crónica que dificulta essa unidade, um paradoxo de ordem racista, uma idiossincrasia à escala continental: muitos povos e países da chamada África negra não se revêem nos países do Magreb e estes, politicamente, estão muito mais virados para a Europa do que para Sul.

O sonho marroquino terminou quando já não era possível ir mais longe, com a derrota inevitável em campo frente a um adversário muito superior, sem margem para o triunfo do romantismo sobre a experiência e o pragmatismo dos franceses.

Um jovem “congolês” nascido na cosmopolita Île-de-France, Kolo Muani, ditou a sentença final à seleção africana que mais alto chegou num campeonato do Mundo. Foi o futebol, em campo, a ratificar sem margem para dúvida a crescente e decisiva influência deste pan-africanismo moderno, em que todos se sentem irmanados por uma matriz comum, independentemente das nações onde nasceram. Mas igualmente e em simultâneo a lei do mais forte, ainda (e sempre?) um país europeu com todo o poder de convencer e reter os melhores talentos.

Além disso, este histórico desafio em marcha à escala transcontinental tem de se haver ainda com um adversário de peso, que é a própria rivalidade a sul e a norte do Sahara.

Quando o continente foi chamado a organizar o Mundial de 2010, um dos “slogans” da candidatura vencedora, da África do Sul, apoiada pelos países sub-saharianos, foi “África somos nós”, marcando uma evidente e profunda distância e diferença relativamente à concorrência de países como Marrocos, Líbia, Tunísia ou Egipto.

E esta questão ancestral não se resolve, tão simplesmente, apenas com a melhor classificação e exibição de sempre de uma seleção africana. 

Talvez só com todo o amor das mães de África.

 

FOTO brfootball

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CATARSES 3️⃣0️⃣

Quando Fernão de Magalhães tocou a Terra do Fogo, encontrou indígenas enormes, para o padrão da época, e com pés tão impressionantes que lhes chamou “patagões”. Era o primeiro choque de culturas da sabedoria europeia com a destreza pedestre dos argentinos, que não se cansa de espantar o mundo, na arte de dançar o tango e de jogar futebol.

Pela sexta vez, a Argentina, sempre subalternizada emocionalmente ao espalhafato brasileiro, vai disputar a final do Mundial, liderada por um patagão de corpo franzino, um anão, tantas vezes vítima de “bullying” por não ostentar os centímetros, os músculos, nem os caprichos dos deuses olímpicos.

Se o Mundial fosse um campeonato de boxe, teríamos um peso ligeiro à beira de derrotar por K.O. técnico todos os pesos pesados do futebol atual. Melhor Jogador, Melhor Marcador, Melhor Passador - o mundial do Catar é o Mundial de Messi, que ontem se tornou também o jogador com mais partidas nesta competição e o maior goleador da seleção em Mundiais - derrubando recordes de Maradona sem margem para dúvidas nem aferições capilares. 

Talvez por ter nascido a norte da Patagónia, Messi foi condenado pelas fadas madrinhas a viver nos limites do nanismo, mas compensado por dotes artísticos, maravilhosos e inesgotáveis no controlo da bola, que lhe terão sido administrados junto com a hormona de crescimento, a somatropina só autorizada para fins terapêuticos pelas autoridades anti-doping, que os druidas da medicina lhe insuflaram no início da adolescência, dando-lhe os milagrosos 20 centímetros que faltavam para se tornar no rei dos anões do Futebol.

É esse bocadinho a mais que lhe permite humilhar adversários com toda a naturalidade e, por vezes, requintes de malvadez, como fez na jogada do terceiro golo frente à Croácia, transformando o magnífico Gvardiol num Orc desnorteado e duro de rins.

Golos e passes de morte, corridas, fintas, dribles, cruzamentos e passos de tango - uma forma técnica e física exuberante, aos 35 anos, a aparecer ao mundo quando o país e a equipa precisavam dele, sem se esconder, sem se escusar. Um gigante em corpo de minorca.

Como em “Aleph”, o conto de José Luis Borges, o Messi da literatura argentina, defrontamo-nos com um insolúvel paradoxo da condição humana, entre a imortalidade e a vulnerabilidade terrena, a identidade e o génio, a simplicidade e o sobrenatural, a aparência e a essência. Como isto anda tudo ligado, até Borges recorreu à mitologia nórdica dos elfos e duendes para descrever “Zahir”, a filosofia islâmica sobre o que os nossos olhos têm de ver para crer:

“Algo que uma vez tocado ou visto, jamais é esquecido - e vai ocupando o nosso pensamento, até nos levar à loucura”, como o futebol de Lionel Messi, agora a apenas uma vitória de completar a trilogia Copa América, Jogos Olímpicos, Campeonato do Mundo.

Com o auxílio de um treinador a sério, o mais jovem do Mundial, capaz de mudar peças, de trocar sistemas e de gerir génios sem dramas nem polémicas, ou de lançar jogadores jovens, semi-desconhecidos, em funções capitais, sem receio dos nomes, nem das antiguidades, nem dos egos.

A Argentina fora derrotada no jogo de abertura pela Arábia Saudita, mas absorveu o choque sem se desunir, sem se desfocar, sem duvidar, sem trocar o supremo objectivo por pequenas glórias transitórias de percurso, com a sabedoria e a experiência de quem sabe que os recordes vêm no fim de tudo, como uma “chocotorta” depois do “bife de chorizo” - e não o contrário.

“Desfrutar”, resume Messi quando lhe perguntam o segredo desta receita vitoriosa. Desfrutar como equipa, à altura da pressão e das exigências, e transformar a “última dança” projectada pelo marketing da FIFA em tango de uma pessoa só! 

Talvez injusto para os Otamendi, para os Fernandez, para os Alvarez, mas quando a influência real de um jogador é tão grande, tão esmagadora, não há espaço para invejas, nem ingratidões, nem hipocrisias. Até porque metade dos golos dele em campeonatos do Mundo (9 em 20) são ofertas em bandeja aos colegas, como aconteceu ontem a Alvarez no lance do 3-0. 

A Argentina é uma seleção em que todos e cada um se mostram conscientes do respectivo lugar, dimensão e importância, onde anões e patagões se complementam e se apoiam, dentro e fora das quatro linhas, sem espaço para salvadores da pátria.

Só falta, agora, o último “round”, o último teste à dúvida eterna dos hedonistas dos estádios: quem é o maior? 

O irritante cupido pedipulador, a quem ninguém consegue parar, em corpo de duende como o Oberon de Shakespeare? Ou o poderoso, atlético e belo, imune ao envelhecimento e reencarnado no próprio corpo, como o Glorfindel de Tolkien?

Um duende minorca ou um elfo colossal? 

O Catar está a apenas 90 minutos de validar para sempre o Rei dos Gigantes da nova mitologia futebolística!

 

FOTO AP

12 Dez, 2022

Ecce homo!

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CATARSES 2️⃣9️⃣

“Eu!”

Foi assim que um imortal e muito especial patriarca do jornalismo desportivo respondeu, num debate televisivo sobre o impasse em torno da escolha de um selecionador nacional, à pergunta que hoje também circula em todos os painéis mediáticos e mesas de café.

José Neves de Sousa fazia uma adaptação livre do célebre lavar de mãos de Pilatos, entregando o futuro de Cristo ao desvario fanático dos fiéis, pouco dados a reflexões, decisões rebuscadas e ideias fora da caixa.

“Ecce homo!”

Assim estamos agora, no limiar de um novo ciclo, com a FEMACOSA crucificada e atirada à cova escura “desfeita em vento” como o estro do Bocage, à procura de alguém que resgate o futebol da seleção nacional através da sabedoria, da experiência, da identidade, do prestígio global e do carisma sem igual, referência para portugueses e estrangeiros, “primus inter pares”, alguém que ponha os jogadores no sítio.

Alguém que se ache tão peculiar e resolvido que leve os outros a reconhecê-lo como “especial” - tão simples como isto.

Se esse homem existe - e existe - é o perfeito para a função.

“Tenho de dizer uma coisa: nós temos os melhores jogadores e, desculpem se posso parecer arrogante, também temos o melhor treinador. Sou campeão europeu, não sou mais do mesmo, penso que sou ‘o’ especial” - foi assim que se apresentou ao mundo em 2 de junho de 2004, talvez o maior compromisso, responsabilidade e desafio que alguém assumiu na história do futebol. 

Uma epifania que lhe marcou o destino para sempre, um discurso tão assertivo que podia ser proferido hoje mesmo, não em Londres, mas no Jamor.

Pela última vez me socorro da metáfora de Alcácer Quibir e da herança mourisca, porque vejo surgir das brumas da dúvida que ensombram a “Cidade do Futebol” os cabelos platinados e o alvo sorriso do Desejado, cidadão José, geneticamente Mourinho.

Agora que está na idade que um dia apontou como apropriada à função de selecionador, perguntem-lhe quem devia ser o escolhido porque ele dará, tem de dar, a resposta para dez milhões: 

“Eu, o Especial”.

 

FOTO CNN

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CATARSES 2️⃣8️⃣

“El-Rei, onde está o Rei?”

Toda a gente perguntava pelo mais “Desejado”, ao ver aquele pelotão desbaratado a desembarcar da nave dos sonhos, sem outros despojos de guerra que não fossem a tristeza no rosto, as feridas no orgulho e uma dor aguda na alma.

“O Rei ficou para trás, perdemo-nos uns dos outros na confusão da batalha…” - arriscou um dos nobres sobreviventes, hesitante entre a assunção do desastre e palavras de honra pela determinação e pundonor com que se tinham batido frente a um adversário em esmagadora superioridade numérica e estratégica.

“Eram mais de 40 mil, um barulho ensurdecedor, não conseguíamos pensar. Pedimos desculpa aos portugueses…”

“Mas está vivo? Sobreviveu como vós? Ficou para trás porque os capitães são os últimos a abandonar?”

“Sim, de certeza, um Rei ainda tão jovem e fogoso não se deixa abater, deixa tudo no campo, não vira a cara à luta e nunca desiste dos seus sonhos”.

“Terá ficado “Adormecido”?”

“Talvez. Ou “Encoberto”… Mas jamais viraria as costas aos companheiros e ao país”.

“E vocês, fidalgos, cabos-de-guerra, não conseguiram protegê-lo na batalha? Deixaram-no perder-se no meio dos inimigos?”

“Vocês não percebem nada de táticas de guerra, as coisas não correram como pensávamos. Eles eram fortíssimos”.

“Sim, não percebemos nada de guerras, mas… Mas fomos derrotados com o salvador da pátria no campo de batalha? Como foi isso possível?”

“Ele só queria ganhar, bater o recorde de conquistas do “King”, chegar à glória, fazer-nos campeões, mas também não se entendeu muito bem com os generais. Talvez não tenhamos remado todos para o mesmo lado”.

“Que vergonha! E agora? Sabem quando regressa? Ele mandou alguma mensagem para o povo?”

“Na hora, não disse nada. Após a derrota, só verteu lágrimas e desapareceu no horizonte”.

“O que vamos fazer sem ele?”

“Vamos esperar que regresse, que o tempo seja bom conselheiro. Ele há-de voltar, numa destas manhãs enevoadas…”

“Assim o desejamos. Que cada um tire as suas conclusões. Que volte el-Rei! Viva el-Rei!”

“Venham, meus filhos, nosso grande orgulho, a mãe-pátria já vai consolar-vos. Foram-se os troféus, ficaram os pés, o vosso e nosso ganha-pão. Amanhã é outro dia, não ouçam os velhos do Restelo” - gritavam mães, irmãs, namoradas, esposas, todas unidas e solidárias no sofrimento dos seus heróis de porcelana. 

“Viva!”, gritaram, num assomo de orgulho e alívio.

E lá foram, estropiados mas reconfortados, ao encontro das mulheres e das crianças, a cambalear de sorriso amarelo e salamaleques envergonhados, os que restavam do exército garboso que se propusera conquistar o mundo mas embateu na fortaleza berbere, reforçada de voluntários de outras paragens, árabes, africanos, otomanos, franceses, belgas e holandeses - suspeitam até de argentinos -, com uma infantaria desproporcional de energia inesgotável que abafou os canhões raiados da nossa soberba.

À passagem da comitiva, os arautos da desgraça, os hipócritas, os invejosos, os ingratos, os vira-casacas, iam subindo o tom de voz, a acidez dos comentários, a verrina da crítica, censurando a ambição cega e a falácia da conquista temerária, movida pela ganância de fama, glória e troféus, para si mesmos e em nome da populaça.

 

— "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos Fama!”

 

Cabisbaixos, mas determinados e ávidos, sempre empurrados pela cupidez sem limite, os fidalgos que ainda restavam da expedição esfrangalhada iriam prometer mais tarde às Cortes políticas, ao clero federativo e ao povo insano, depois de merecido descanso e reflexão, novas investidas, novas conquistas, novos Mundiais ao mundo - a essência psicológica dos Lusíadas, cantada pelo Poeta, no canto IV:

 

— "A que novos desastres determinas

De levar estes reinos e esta gente?

Que perigos, que mortes lhe destinas

Debaixo dalgum nome preminente?

Que promessas de reinos, e de minas

D'ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? que histórias?

Que triunfos, que palmas, que vitórias?”

 

FOTO reprodução tv

CATARSES 2️⃣7️⃣

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CATARSES 2️⃣7️⃣

As tendas dos nómadas do deserto são obras de arte e engenho que suportam os ventos e as temperaturas extremas, tanto o frio como o calor. São escancaradas pelas abas para deixar circular o ar, mas absolutamente bem escoradas e firmes, para manterem o centro à sombra, fresca e tranquila - e os inimigos à vista.

Assim é o sistema de jogo de Marrocos, um enorme “bivouac”, à boa maneira dos séquitos dos berberes que viajam sempre com a casa às costas, em protecção da sua área, aberto pelos lados às brisas inofensivas do ataque português, mas mantendo sempre a zona central e a baliza vedadas aos raios de luz e calor das estrelas adversárias.

Só um vendaval ofensivo poderia abanar e derrubar o enorme acampamento marroquino, mas parece que as únicas tempestades causadas pelas nortadas portuguesas no deserto do Catar foram de “fogo amigo” e de areia e poeira sopradas para os olhos dos adeptos pela ventoinha de informação e contra-informação da FPF.

Assim se resume a carreira de Marrocos no Mundial, derrotando em sequência algumas das maiores potências, Bélgica, Espanha e Portugal, e resistindo à Croácia, com apenas seis golos marcados, mas, sobretudo, somente um golo sofrido - um auto-golo até, portanto com 100% de eficácia defensiva perante cinco adversários em 600 minutos de jogo.

Porque o ataque ganha jogos, mas a defesa ganha campeonatos - dizem os americanos. No caso de Portugal, foi um erro defensivo, uma “barraca” na realidade, que nos levou mais um campeonato de esperanças e sonhos.

Sim, Marrocos tem uma equipa muito organizada, forte, combativa, com um guarda-redes que faz a diferença e avançados buliçosos, mas sem qualquer jogador de classe mundial como têm os outros semi-finalistas e os favoritos já mandados para casa. É, aconteça o que acontecer a seguir, um campeão pelo trabalho e pela determinação.

O futebol, que começou a ser jogado no século XIX em 2x2x6,  tornou-se no mais adorado desporto pela luta eterna dos treinadores ambiciosos contra os arquitectos da defesa e do anti-golo. Em décadas sucessivas, foram inventados o defesa-central, o stopper, o WM, o ”Método” e o “Sistema” de Pozzo, a “retranca” suíça, o “libero”, o “catenaccio”, o terceiro central - e houve sempre “antídotos” de ataque, que passaram pela criatividade, liberdade de acção e genialidade dos melhores jogadores. Amarrar os atacantes a sistemas defensivos é um crime de lesa-futebol.

Há tempos, apareceu no léxico futebolês o verbo “desmontar”, lançado pelo treinador Vítor Pereira como comentador televisivo fugaz. “Desmontar” as defesas tornou-se então a ‘password’ dos “experts” para toda e qualquer situação de dificuldade perante equipas bem montadas na defesa.

Ora,  “desmontar” é o enigma que Fernando Santos nunca conseguiu resolver na maioria dos jogos mais complexos dos seus anos na FEMACOSA federativa, sobretudo nas fases adiantadas das grandes competições, com o bambúrrio do Euro-2016 a servir como a excepção. 

Bola trocada atrás e pontapés longos a procurar espaços inexistentes nas costas da defensiva marroquina, sem ritmo, sem dinâmica, sem criar superioridade nas zonas nevrálgicas, assim jogou Portugal cerca de uma hora até à introdução desesperada e sem nexo de mais e ainda mais corpos para a frente ofensiva.

Se foram os jogadores que decidiram ou obrigaram a estes equívocos estratégicos, em contra-ciclo com as boas ideias mostradas na partida anterior, é porque o treinador não tem “criatividade nem imaginação”, precisamente os defeitos que aponta à equipa.

Porque, efetivamente, dispôs e desperdiçou o maior naipe de jogadores de classe mundial de sempre, melhor que o dos campeões europeus, e termina - assim espero - o longo consulado sem nos deixar um legado que possa constituir base de trabalho, seja para quem quer que venha a seguir. Portugal tem jogadores excepcionais, que merecem um seleccionador tão bom e seguro de si, que só aceite um contrato de trabalho a termo, que lhe garanta independência e superioridade moral.

 

FOTO AFP

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CATARSES 2️⃣6️⃣

Morreu Grant Wahl.

Um ataque cardíaco fulminante em plena bancada de imprensa do estádio onde acabara de assistir ao Argentina-Holanda do Mundial do Catar. Com 48 anos.

É dramático sim, raro, brutal, injusto. Nunca será apenas futebol, nunca será apenas vida ou morte, o Futebol é muito mais que isso - recorrendo novamente à explicação esotérica de Bill Shankly.

Conheci Grant Wahl no Mundial de França de 1998, quando ambos acompanhávamos o estágio da seleção dos Estados Unidos no meio de um vinhedo do Beaujolais e estivemos em vários jogos, nomeadamente o histórico Amerika-Irão, em Lyon.  Reencontrei-o no ano seguinte em Los Angeles na cobertura de um importantíssimo Congresso da FIFA e na final do Mundial de Futebol Feminino, ganho pelos Estados Unidos no Rosebowl de Pasadena, já no encalço dos podres da camarilha de Joseph Blatter.

Nesses anos antes da internet, eu, apaixonado pela essência do desporto norte-americano, era assinante da Sports Illustrated onde Grant começava a publicar reportagens completas e rigorosas. Soube agora que fez a capa da maior e melhor revista mundial de desporto por mais de 50 vezes, inclusive com o tema Cristiano Ronaldo, um recorde difícil de bater por jornalistas comuns. Foi muito influente na expansão do futebol nos EUA, autor do livro “The Beckham Experiment”, com crónicas nos jornais nacionais e aparições regulares na CNN. 

Não voltámos a ver-nos porque já não fui ao Mundial da Coreia de 2002, por ser considerado pelos meus editores um tipo demasiado problemático para continuar a andar perto da seleção nacional, que se queria tranquila e vitoriosa, desviando-me em boa hora para o mundo Olímpico, onde ele também trabalhou, sobretudo acompanhando a selecção feminina dos EUA. De certo, estivemos ao mesmo tempo, sem nos cruzarmos, no ‘Ninho de Pássaro’ a ver a final dos Jogos de 2008, com Messi, Riquelme e Di Maria, porque a Argentina era especial para ele.

Continuei a acompanhar-lhe a carreira nas redes sociais para não perder as intervenções mais significativas. A coragem e frontalidade com que enfrentou o poder corrupto da FIFA, que chegou a mudar os estatutos eleitorais para evitar que Grant Wahl voltasse a candidatar-se à presidência, como fez em 2011, pondo em alvoroço o status quo, até ser obrigado a desistir pelo cansaço e falta de apoios do sistema federativo.

Era um homem de causas, casado com uma célebre virologista que aconselhou o futuro presidente Biden sobre a crise do Covid-19, e no começo do Mundial chegou a ser detido pela polícia dos costumes do Catar, por aparecer vestido com uma t-shirt arco-íris. O irmão acha que foi assassinado, alvo de conspiração do regime totalitário de Infantino e seus sequazes. À distância parece-me rebuscado, mas merece que algum discípulo pegue no assunto.  

Grant Wahl era agora um freelancer, com espaço na tv americana mais ligada ao “soccer”, a Fox, e escrevia para o ‘New York Times’, o Real Madrid do jornalismo, depois de ter sido despedido pelos novos proprietários mercantis da SI por recusar o corte salarial nos anos da pandemia. De qualquer modo, também a revista se tornara pequena demais para ele. 

Morreu a ver a sua Argentina, o país de adopção que escolheu para o seu trabalho de curso de estudar o futebol num país estrangeiro e onde pudesse desenvolver o seu espanhol, tendo passado um verão na Bombonera, a mítica casa do Boca Juniors e de Diego Maradona.

“Esse amor de verão de um estudante de 20 anos, apaixonar-me por um estádio”, descreveu mais tarde. “Adorei estar nas bancadas, cantando e correndo como louco, como surfista sobre a onda da multidão de adeptos ao encontro da vedação por trás da baliza, sempre que o Boca marca um golo”.

Os seus últimos tweet foram “o que é que acaba de acontecer?” e “mais um incrivelmente desenhado golo de bola parada da Holanda”, como comentário de conhecedor e amante de futebol à brilhante invenção de Louis van Gaal que empatou a dramática partida com a Argentina, aos 90+11 minutos.

Grant Wahl, verdadeiro homem do futebol, morreu como Cândido de Oliveira, fundador de A Bola e mestre dos treinadores e dos jornalistas, quando cobria o Mundial da Suécia, no ano em que nasci, e desrespeitou as ordens médicas para descansar no hotel e não ir aos estádios ver Pelé - o que contribuiu para agravar irreversivelmente uma infecção pulmonar.

Há uns dias, Wahl sentiu-se mal, por causa de uma constipação mal curada na noite do Holanda-Estados Unidos, e os médicos no centro de imprensa diagnosticaram-lhe possível bronquite, medicaram-no com antibióticos, mas confessou não se sentir bem: “Ainda, ‘no bueno’”.

 
Rest in Peace.

 

FOTO The Guardian

 

 

 

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CATARSES 2️⃣5️⃣

Acreditar que D. Sebastião podia assomar ao alto da Serra dos Candeeiros, impante e Vitorioso no seu garanhão branco, era um dos devaneios da minha infância, inspirado pelos cânones negacionistas do regime, naquelas manhãs de geada, neblina e poças de água, a caminho da escola primária.

Muitos anos depois, o futebol e a profissão possibilitaram-me trabalhar intensivamente em Marrocos durante mais de um ano. Uma oportunidade única de conhecer a História, pelo lado do inimigo. Foi há 20 anos, mas lembro-me exactamente onde estava e com quem, os meus amigos Youssef e M’ahmed, ao serão em Agadir, quando tomei consciência da narrativa absurda que nos foi ensinada sobre esse episódio trágico e marcante para Portugal e para o Mundo.

Eles chamavam-lhe a “Batalha dos Três Reis” e demoraram algum tempo a perceber o que queria dizer o meu “Alcácer Quibir” que, na verdade, era o original Ksar el-Kebir, que devíamos ter traduzido literalmente por “Grande Castelo”, ali perto do Wadi al-Makhazin, um vale à prova de invasores, onde tudo se passou - para que o trauma da derrota não fosse tão grande e perene.

E que, embora armados com artilharia pesada, os portugueses aliados às tropas mouras do Sultão caído em desgraça, Abdallah Al-Mutawakil, não chegavam a metade dos mais de 50.000 soldados do terceiro Rei, o Sultão Abd al-Malik. 

Foi pela voz dos amigos marroquinos que finalmente matei o Sebastião da minha genética cultural, por solidariedade alheia, ao tomar consciência que também os dois Reis muçulmanos desavindos tinham morrido na carnificina desse 4 de Agosto de 1578, da qual ninguém saiu ileso.

Mais de 400 anos depois, incluindo banhos e passeios prazenteiros nas praias onde Sebastião e as suas tropas em fuga se afogaram dramaticamente, conheci um país extraordinário. 

Do azul da costa mediterrânea de Tânger ao branco dos picos nevados do Atlas, passando pelas tinturarias de Fez, pelo ocre de Marraquexe ou pelos cenários épicos de Ouarzazate, a porta do Sahara, do nascer do sol ao som dos minaretes a chamar para o primeiro “Salah” e do frenesim das manhãs no meio do trânsito dos burros de carga nas medinas sobrelotadas das cidades imperiais, à sensualidade das dançarinas do ventre nas noites dos riades, e absorvendo, sempre que pude, a inspiração contemplativa do silêncio do palmeiral de La Mamounia, o palácio que preserva intacta a suite de Churchill com a mesma abertura multicultural com que se lê um jornal europeu e se come ‘croissants’ pela manhã em Casablanca.

Adoro Marrocos e sei que os marroquinos adoram Portugal e os portugueses - não entendo como não existe uma ponte política, social e económica, sem barreiras nem portagens, entre as duas margens deste rio salgado que nos separa. 

Adoro futebol e aprendi que nenhum povo gosta mais de futebol do que o marroquino, pelo que também fui derrotado junto com as “tropas” do Rei Mohammed VI na batalha de Zurique em que o conluio da FIFA atribuiu o Mundial de 2010 à África do Sul.

Hoje voltamos a encontrar-nos num mar de areia, árido e truculento, precisando de deixar em casa a arrogância sobranceira dos eternos Sebastiões que habitam em nós.

Como diz o fidalgo da FEMACOSA, a selecção de Marrocos é fortíssima, determinada e organizada como o exército de Al-Malik, que atacava pelos flancos com uma cavalaria de puros-sangues, os Hakimi e os Ziyech pela direita, os Mazzraoui e os Boufal pela esquerda, para ganhar o domínio do centro da batalha. E com a firmeza dos Bono, a combatividade dos Amrabat e a inclemência dos En-Nesyri desbaratava a admirada táctica do quadrado, espécie de tiki-taka dos torneios ibéricos, engendrada por Mister Álvares Pereira, 200 anos antes.

“O Desejado" cavalgou ao encontro de uma morte inglória, treslouco pelo cristianismo assanhado e miragens de glória a clamar “Sebastião, Sebastião, Sebastião”. Não nos inebriemos se, às tantas, ouvirmos a multidão de árabes e berberes no estádio do Catar também chamar o capitão-mor das tropas lusas, “Cristiano, Cristiano, Cristiano”.

Será apenas um enganador salamaleque colectivo, o canto das sereias do deserto.

Fazem-no com a sabedoria negocial com que nos impingem marroquinaria nos “souks” da praça Jemaa el-Fna, dos encantadores de serpentes, pelo triplo do valor real. Ou com a desfaçatez com que em 1986 endrominaram o ingénuo Bom Gigante, José Torres, atormentado pelas patetices de Saltillo, tal como o selecionador tem andado assoberbado pelas tolices de Doha. 

Se de Alcácer Quibir saiu um novo Sultão, Aḥmad al-Manṣūr (Aḥmad, o Vitorioso), que se cumpra o destino, meio messiânico, meio sebastiânico, de sair da batalha de Al-Thumama, contra todo o mundo árabe reunido em apoio de Marrocos, um novo Rei, Amado Portugal, o Vitorioso.

Oxalá!

 

FOTO Morocco World News

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CATARSES 2️⃣4️⃣

Ricardo Reis, o clássico “criativo” de influência brasileira e um dos craques principais do vasto plantel à disposição do seleccionador Fernando Pessoa, atacou o pecado da soberba na ode “Quero ignorado, e calmo”, uma oração à humilde gratidão, muito atual e reflexiva:
 
“Aos que a riqueza toca, o ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja, embacia-se a vida.”
“Aos que a felicidade, é sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera, tudo que vem é grato.”
 
A gratidão (e a falta dela) provocou nos últimos dias um autêntico cisma na vasta legião de seguidores desta nova igreja do Cristio-ronaldismo que vinha medrando há anos em franjas da sociedade portuguesa, primeiro como família, em seguida como claque devota, depois como seita incondicional e, finalmente, como religião de fanáticos exaltados e absolutamente intolerantes aos espíritos críticos.
Não é a primeira vez que esta conexão espiritual com o futebol se desenvolve em formato religioso. Com Pelé e os campeonatos do mundo nasceu o conceito “Deus é brasileiro”, embora perdendo de goleada para a eficácia do candomblé com seus orixás e pais de santo.
E, mais tarde, a Igreja Maradoniana, fundada em 1998 na cidade argentina de Rosário, com todos os seus preceitos em 10 Mandamentos e obediência ao divinal tetragrama D10S (Dios), que confunde o D de Diego com o seu número, e que conta os anos como a.D. e d.D, antes e depois do nascimento d’Ele:
“Diego nosso, que estás no céu, santificado seja o teu pé esquerdo…”
Por cá, é frequente ouvir que a marca CR7 é maior que Portugal, pela força dos seus triliões de seguidores, e arrisco-me a afirmar que terá mais fiéis do que muitas religiões milenares, arrastando multidões de crentes que nunca tinham sentido necessidade de empunhar a palavra e sair à liça em defesa do seu profeta. Idolatrava-se este novo cruzado por ser pacífico e magnânimo, tomando conta do mundo pela graça do seu toque de bola e pelos golos milagrosos que fazia à vista de todos, segundo os três mandamentos dos deuses do Olimpo, “mais rápido, mais alto, mais forte”.
Mas agora, nada se diz que não descambe em discussão inclemente e agressiva contra os cépticos, os ingratos, os injustos, os hipócritas, os invejosos, os mal-agradecidos, os traidores, os jagunços, os arrombados, os babacas, “essa gentalha”, para citar alguns dos epítetos com que vi e ouvi serem catalogados os que ousaram manifestar-se a favor das mudanças do seleccionador e contra o vedetismo exacerbado de um extraordinário jogador de futebol em evidente ‘off side’.
O cisma separa os indefectíveis, para quem é inadmissível questionar a infalibilidade dogmática da divindade, dos hereges protestantes que deixaram de reconhecer a autoridade técnica, táctica e física do líder espiritual, pelo menos no âmbito da selecção.
Esta vigilante e estulta “polícia da ronalidade” começa o enunciado das suas contra-ordenações por “não percebo de futebol, mas…”, convicta de que os que se colocaram do lado do “Nós” são perigosas ameaças para “Ele”.
Os blasfemos foram ameaçados de excomunhão, pelos sacerdotes e pelas vestais saídas a terreiro em desagravo do “supremo monstro sagrado esculachado pela mula (Fernando Santos)”, como eloquentemente definiu um “pastor” brasileiro do ramo universal deste reino, numa corrente de libertação no YouTube, enquanto bramava contra os golos de Gonçalo Ramos.
”Preferia Ronaldo a titular do que a vitória contra a Suíça”, afirmou urbi et orbi, na mesma linha num púlpito aberto a cabotinos, outro desses diáconos sem remédio, mortificando-se com o cilício televisivo - o cinto de arame que tritura o corpo e não o silício orgânico que combate o envelhecimento -, como penitência alheia pela longa lista de pecados e omissões averbados nos últimos tempos ao deus-homem nos terreiros do Catar.
Caríssimos irmãos, oremos, então, pelas palavras do poeta para que a compreensão acenda a luz nessas vidas embaciadas pela fama e assoberbadas pela riqueza.
Oremos pelo verbo do evangelista do Português para que a humildade ilumine e gratifique estes tempos de trevas.
 
“Quero ignorado, e calmo (Cristiano)
Por ignorado, e próprio (Ronaldo)
Por calmo, (o Futebol) encher meus dias
De não querer mais (os Golos) dele(s)”
 
Que me perdoe, o Supremo Ricardo Reis, autor de “Segue o teu destino”, por esta derradeira infâmia satânica contra a ode e a língua, religiosamente a pátria de todos “Nós”:
 
“Os deuses são deuses
Porque não se pensam”
 
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CATARSES 2️⃣3️⃣

“Vivos, mortos ou no mar” - estas eram as opções da roleta russa existencial dos marinheiros de antanho. Assim, também a vida das grandes figuras do futebol enfrenta permanentemente três possíveis “status quo post bellum”, como os rebuscados de Latina se referiam aos resultados das guerras: seguir em frente, ser eliminado ou ficar à mercê de um tiro no escuro.
Esta é igualmente a história de Fernando Santos, o treinador português de maior sucesso, Capitão de Mar-e-Guerra do Europeu, Comodoro da Liga das Nações e possível Almirante do Mundial. Quando enfrentou estes mares raramente navegados, conseguiu sempre encontrar o caminho de regresso, com mais ou menos enjoos, e agora lá vai ele outra vez, nas águas cálidas do Golfo Pérsico, com meio caminho andado desta circum-navegação virtual dos tempos modernos, do banho nas costas selvagens do Gana ao sobreaquecimento dos glaciares da Suíça, voando com os “pássaros pintados” do Uruguai ou perdendo por momentos o azimute no paralelo 38 da Coreia.
Seguro ao comando, sem receio do naufrágio futebolístico, que bela viagem está fazendo, senhor engenheiro - permita-me que o trate assim, pela primeira vez, nestes meus desabafos catárticos com que tento disfarçar a ansiedade obsessivo-compulsiva de ainda estar vivo para ver Portugal ganhar um Mundial.
Durante anos, milhares de sábios da bola, taxativos e presunçosos, apontaram-lhe os erros, as faltas de coragem, as dependências, a invejável sorte, recusando-se reconhecer-lhe o mérito pelos resultados bons e responsabilizando-o pelos maus - como se o futebol tivesse de ser preto ou vermelho, par ou ímpar, sem meio termo, de perder a cabeça, sim ou sim.
Lembra-me a personagem central da autobiografia daquele outro engenheiro de São Petersburgo, dado às filosofias e que trabalhou como preceptor, uma profissão parecida com a de treinador de meninos ricos e mimados, o grande Dostoievski, em “O Jogador”, tentando recuperar a auto-estima, a fortuna perdida e o amor não correspondido, num mundo frívolo e egoísta de generais e barões de pacotilha, nos casinos de Ruletemburgo.
O futebol consegue ser ainda mais surpreendente do que uma roleta aleatória, pois não depende da sorte da vida nem do azar da morte, mas do tal terceiro “status”, o da sabedoria de ler as cartas, sejam de jogar ou de marear, e de manter a mão quente e a cabeça fria, tanto ao leme como no carteado.
Caro engenheiro, temos em comum a amarga experiência profissional de qualquer leigo saber mais do que nós, ter mais certezas do que nós, ser presumidamente mais competente do que nós. Jornalistas e treinadores de futebol - e árbitros também - são as profissões mais fáceis e desqualificadas, as únicas em que os “caçadores de cabeças” dos recursos humanos desprezam em vez de promover e despedem em vez de confiar, com a certeza científica do marinheiro que levanta o dedo indicador molhado de saliva para perceber a direcção do vento.
Tenho de ser, portanto, solidário com o seu trajeto. Estou farto de me irritar com as suas opções, mas tento reconhecer que talvez não pudesse ser de outra maneira. Ou podia?
É que - e espero que algum dos basbaques das conferências de imprensa de Doha lhe venha a fazer essa pergunta - falta-me entender por que razão não fez as alterações desta semana mais cedo, há uns quatro ou cinco anos, quando tantos começaram a alvitrar que a soma da qualidade individual dos jogadores era muito mais valiosa do que a produção da equipa.
Por que não atalhou a rota mais cedo?
Por que foi deixando rolar o tambor até ficar testa a testa com a última bala?
Não gosto nem quero associar este triunfo histórico sobre os suíços a um golpe de sorte, prefiro até pensar que as decisões tenham saído de algum conselho divino, e sei o que lhe custaram, imaginando que dobrar o ego de Cristiano Ronaldo provoque mais suores frios do que encarar o Adamastor.
E curvo-me pela sua capacidade de orientação quando me lembro que tantos aventureiros se perderam nos mares sem encontrar o rumo de regresso a bom porto.
Parabéns pela vitória, mas trate de reforçar o actual “status quo ante bellum”, o estado em que as coisas estão antes de nova batalha, liderando com mão firme, sem margem para desvios caprichosos, aqueles a quem, no próximo sábado, compete remar contra as correntes adversas das praias de Arzila, vencer finalmente Alcácer-Quibir e regressar à pátria como reis nestas manhãs frias e húmidas de dezembro.
P.S.: Por um bem maior, abro uma trégua na questão da FEMACOSA. Mas não está esquecida.
 
FOTO SAPO Desporto

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CATARSES 2️⃣2️⃣

Foi há precisamente 200 anos (1822) que D. Pedro, entre a espada e a parede, nas margens de um riacho paulista, proclamou o grito de “independência ou morte” que estabeleceu a libertação do Brasil, mais tarde imortalizado como “Grito do Ipiranga” numa tela a óleo cujo título acabou por se converter em “passe partout” linguístico.
O líder da FEMACOSA, cuja ligação ao reino da Federação também já teve melhores dias e estava encostado na parede, é bem menos dado a posições extremistas do que o príncipe trânsfuga, mas como diz o povo a ocasião faz o malandro. E como a seleção precisava de um “grito do Catar” que libertasse de vez, das amarras do futebolisticamente correto, o génio dos seus jogadores para a malandrice!
Por seis vezes o grito ecoou à distância do Rei “traído”, Sua majestade Cristiano Ronaldo. Mas já não o seu “Siiiiii” mundialmente famoso a sonorizar o salto com meia pirueta conhecido como “estou aqui”, sozinho como Narciso, à frente dos espelhos de todos os fotógrafos do mundo.
Desta vez, ouviu-se um coro bem ensaiado de “Nóóóóóós”, que o líder já anunciara, antes do primeiro jogo desta campanha, ser "a única palavra escrita no balneário” - uma retórica a que os cépticos não reconheceram importância.
Mas foi realmente o que se sentiu por cada proeza do mundialmente desconhecido Gonçalo Ramos e dos seus patronos, transformando o ícone mediático em nada mais que um “wally” anónimo no cacho dos festejos dos golos de Portugal, poucos minutos depois do momento chocante em que todas as câmaras do Catar viraram costas à seleção perfilada, para gravarem o insólito quadro do protagonista sentado à margem do palco - tal como o pintor brasileiro imortalizara a cena da fundação do Brasil.
“Onde está Cristiano Ronaldo?”, perguntámo-nos, surpreendidos por uma sequência de festejos de golo em que ele não era a personagem central, nem orquestrava a coreografia.
Julgamos conhecer as pessoas, mas, à mínima distracção, elas deixam-nos sem palavras com decisões que considerávamos impossíveis. É neste estado catártico que me encontro há horas, tentando entender o que se passou no quartel-general da FEMACOSA antes do jogo com a Suíça.
Até um treinador a quem anos e anos de decisões timoratas e controversas tinham moldado um perfil de ganhador sem saber como, na realidade, pode um dia abusar da sorte e fazer o seu “all in” de afirmação, surgindo à porta da história como um novo D. Pedro em revolta contra o poder dos Reis do futebol português.
Quem mais se vai atrever a sugerir de novo que as suas decisões são meras formalidades pelos interesses do Principe Regente Jorge Mendes e da sua Corte de “yesmen” bem instalados?
A vitória sobre a Suíça foi apenas um primeiro passo revolucionário, a precisar de confirmação, mas faz sonhar com uma nova seleção, livre, criativa, fecunda e inspiradora que, no fundo, todos sabíamos que existia por dentro daquela prisão mental que a bloqueava pelo medo de ser feliz.
Parece que no final, ainda houve um último estertor de individualismo do capitão fantástico, uma tentativa de roubar o foco no regresso ao balneário, à parte do grupo de "Nós" em festa, mas nessa altura já era inapagável o brilho intenso desta geração de diamantes encrustrados nas jóias douradas da geração anterior.
Foi apenas uma revolução, não está tudo bem, não somos campeões do Mundo.
A dignidade da independência é um caminho das pedras interminável que é preciso calcorrear com a mesma determinação e coragem com que os antepassados de Gonçalo Ramos conquistaram os Algarves à ameaça marroquina em batalhas bem mais encarniçadas do que a rendição das tropas em Pernambuco, esburacadas como queijo suíço.
Mas nunca será apenas sorte.
Nem mera gestão de orientações alheias.
Quanto muito, uma epifania transcendental de quem acredita em forças e desígnios superiores.

Seja o que for, obrigado.
“Siiiiii”!

FOTO AFP