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Uma surpreendente jogada de reposição de bola entre Vlachodimos e Ruben Dias no último jogo do Benfica frente ao Milan gerou uma discussão global nos últimos dias e deu enormes créditos aos laboratórios encarnados, apesar do resultado aparentemente pífio da iniciativa.

As cabecinhas pensadoras do Seixal tiveram boa intenção: toque do guarda-redes, devolução de cabeça pelo defesa e rápida reposição à mão para um lateral em corrida de contra-ataque, ultrapassando pela surpresa a primeira barreira do adversário.

Fica por saber, por enquanto, se o Benfica procura ressuscitar as reposições de bola longas, a que deixara de recorrer desde a saída de Ederson e que também caiu em desuso na generalidade das grandes equipas mundiais, devido à baixa percentagem de sucesso: apenas 30 a 35 por cento dos pontapés de baliza compridos não terminam em posse do adversário. Como, de resto, aconteceu com esta experiência, com Grimaldo a perder a bola e a não conseguir dar sequência ao lançamento do guarda-redes.

Assim, o resultado prático deste movimento, tendo jogadores com qualidade técnica para o executar em segurança tão perto da baliza, será completamente diferente, subvertendo a intenção do Benfica. A devolução ao guarda-redes dentro da grande área vai proporcionar-lhe cerca de 20 segundos de passividade, entre o agarrar, deixar-se cair, levantar-se, passear na área e finalmente repor a bola, sendo propício à “queima” de tempo nas fases finais dos jogos..

Ou seja: o que parecia um inteligente movimento de ataque terá muito mais aplicação como movimento defensivo e de anti-jogo.

Foi por isto, aliás, que muitos acharam imediatamente que se tratava de um lance à margem da lei e que o próprio árbitro americano terá advertido para não se repetir naquele jogo. E que, muito provavelmente, na próxima revisão, o International Board acabará por ilegalizá-lo com uma norma excepcional.

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Um tópico que faltou nas célebres comunicações em directo do Ministro de Informação de Sadam Hussein em plena Guerra do Golfo foi o chamado “fogo amigo” que causava as maiores baixas entre as forças da coligação agressora do Iraque. Encerrado no seu bunker de Bagdad, o homem não sabia o que se passava na frente das próprias tropas iraquianas, quanto mais nas hostes inimigas.

Esta semana lembrei-me dessa falha irreparável do patusco Mohammed Saeed al-Sahhaf ao ver as surpreendentes e contraditórias intervenções do Director de Comunicação do FC Porto, no seu bunker no Porto Canal, precisamente sobre o “fogo amigo” que custou a baixa do capitão Danilo na guerra do Algarve.

Foi preciso viver décadas neste meio para assistir à acção destrutiva deste tomahawk azul e branco, que abre uma cratera enorme no coração do FC Porto e deixa a nação portista cheia de dúvidas sobre a força actual do seu presidente vitalício. O descontrolo da informação é o primeiro sinal da fraqueza do regime.

E foi de total descontrolo dos acontecimentos a imagem que passou, do popular Jota Marques a desdizer tudo o que tentara passar para negar os acontecimentos e acabar por confirmar que era informação pura e dura o que tinha vindo a público. Não só credibilizou os diabólicos meios de informação, como acabou por enxovalhar e levar ao desespero os corajosos combatentes que se tinham esforçado também, até ao limite, a negar, durante dois dias, as evidências do conflito aberto entre o general e o capitão: houve quem chegasse a considerá-lo um delírio de “gente a navegar em ácidos”.

Num tempo em que a informação é tão importante para o exercício do poder, é toda a lógica de comunicação do FC Porto dos últimos três ou quatro anos que está finalmente em causa, depois de obrigada a bater em retirada da frente de guerra contra o Benfica. Perdido o foco (e as munições) contra o inimigo único, as baterias entraram em curto-circuito.

Tal como o saudoso Mohammed, um dos primeiros cómicos da história da televisão global, também Jota Marques há-de ser lembrado como exemplo do que não se deve fazer na área da comunicação. De tudo o que disse de mais importante, só vai ficar a caricatura.

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Há décadas, instalou-se no FC Porto a ideia de que a definição de perigosos inimigos externos é excelente para reunir as tropas e ganhar “contra tudo e contra todos”. Quanto mais nos hostilizam, mais nos unimos - era a receita infalível que, acreditavam, fornecia aquele extra de energia necessária para chegar aos títulos.

Começou no atavismo provinciano, a síndrome da ponte da Arrábida denunciada por Pedroto, prosseguiu no toque à insurreição, sob a bandeira da Regionalização confundindo-se com a ambição política dos caciques locais, avançou para o ataque declarado ao poder central, a fantasmagórica capital do Império, e culminou na guerra civil contra um parceiro de negócio, o gigantesco Benfica. Foram tempos de agressividade declarada, mas frequentemente dissimulada por tiradas de humor cáustico e bizarro, que nalgum momento os basbaques de serviço definiam como “fina ironia” do chefe máximo.

Em todas estas sucessivas fases de guerra aberta esteve sempre presente e viva, em paralelo, uma frente de guerrilha contra a comunicação social, primeiro os jornais desportivos, agora as televisões por cabo, com tácticas de inteligência subterrânea, tão díspares como a informação zero dos blackouts do século passado ou as overdoses de dados roubados pelos amigos hackers de hoje. 

São 30 anos de luta, bem recompensados por ciclos triunfais que, contudo, nada devem a esse vício diminutivo do confronto permanente, mas sim a grandes treinadores, jogadores e outros profissionais, que por lá foram passando. Foi a “organização” desportiva do FC Porto que conquistou os títulos nacionais e internacionais, mas sem nunca conseguir eliminar o complexo de inferioridade dos principais dirigentes, o qual impediu o clube de crescer como seria suposto e justificado e se transformar no maior do país.

Os episódios dos últimos dias, ainda difíceis de entender por inteiro, dão sinais de um descontrolo imenso que conduz o FC Porto para um destino incerto, faltando imaginação para deles desenrascar um dichote que pudesse ser lido também como humor inteligente. A derradeira fina ironia desta história gloriosa já está a tardar.

Embora haja abencerragens que só consigam ver incidentes de contra-informação e desinformação por parte dos adversários, os equívocos deste defeso apontam para a época mais difícil dos últimos 30 anos. A saber, sem ser exaustivo:

> a substituição de Casillas

> a descontratação de Bruma 

> a recuperação de Marcano

> a avaliação de Nakajima 

> a revelação de Zé Luís

> a tentação por Fábio Coentrão

> a desautorização de Danilo

Há em todos estes episódios recentes, na sequência de outros que evidenciam uma enorme fragilidade da tal “organização”, uma linha de actuação aparentemente negativa e insatisfatória para cada vez mais adeptos. Aliás, eu vejo-a como profundamente negativa, mas não menosprezo quem está por trás de tudo.

Provavelmente, como é da tradição, segue-se uma ordem a reunir, “contra tudo e contra todos”, e muita fé no triunfo final. Se o conseguir, se o FC Porto emergir desta pré-época delirante como campeão e triunfador, teríamos de elevar os responsáveis por esta mixórdia de avanços e recuos à condição de génios da estratégia.

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